HABILIDADES PERCEPTIVAS E CULTURA: A CAPOEIRA COMO MODO DE VER E DE SER

Christine Zonzon

Resumo


A partir de um estudo do ensino e da prática da capoeira, focaliza-mos as qualidades que se constituem como critérios de excelência expressas pelos termos malícia, malandragem ou mandinga. Ressalta-se que a malícia caracteriza tanto os fazeres do corpo como as interações sociais do capoeiris-ta, revelando-se como um modo de ser diante das tensões e conflitos poten-ciais. Essa perspectiva aponta para a dimensão existencial da experiência corporal e nos convida a uma releitura dessa tradição que tem se reforçado como emblema da cultura afrobrasileira, com significados étnico-políticos postos em destaque ao longo das últimas décadas. No texto que segue, pro-põe-se apreender as formas peculiares de atuar/ser do capoeirista associan-do-as ao desenvolvimento de habilidades perceptivas específicas, entre as quais os modos de atenção visual ocupam um lugar central. A investigação da visão e da motricidade que subjazem à atuação maliciosa do capoeirista procura enriquecer a discussão sobre as especifidades sensoriais próprias a cada cultura e demonstrar que o sentido da visão nem sempre se apresenta a serviço da cultura ocidental visualista, como o pretendem recentes estudos da antropologia dos sentidos. A abordagem visa a revisitar antigas questões em torno da cultura e da sua transmissão, inspirando-se nos aportes da fe-nomenologia e da antropologia cultural, notadamente através de uma inter-pretação dos conceitos de “habitar o mundo” de Maurice Merleau-Ponty e do “par organismo/ambiente” de Tim Ingold.

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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/cl.v12i1.1490

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