Por que os mortos falam? Uma leitura de Eros e Thanatos no romance de Filipa Melo

Állex Leilla Alessandra Leila Borges Gomes Fernandes, Bruna Souza Rocha Oliveira

Resumo


A partir das noções de literatura e experiência de morte, conceitos extraídos de Phillipe Ariés e Maurice Blanchot, analiso a história que é tecida no romance Este é o meu corpo, de Filipa Melo, que aborda a relação de Thanatos e Eros, mitos gregos definidos por Sigmund Freud como pulsão de morte e pulsão de vida. Movimentando-se entre pequenas narrativas, que funcionam como um mosaico de memórias, costumes, amor-paixão, violência contra a mulher, entre outras agudezas da condição humana, a autora portuguesa desenvolve no romance — cujo título remete à homília católica da eucaristia — um personagem-chave para elucidar o crime. Trata-se não de um detetive oficial, mas de um narrador médico-legista, que, no processo de autopsia, vai desvendando as circunstâncias da morte da personagem Eduarda, a fim de devolver a identidade da vítima: uma mulher jovem, encontrada morta e desfigurada numa praia. Contraditoriamente, ao tentar revelar como se deu esse assassinato, o labor da autópsia permite que o corpo sem vida fale. Nesse sentido, compreendo que o médico-legista é a metáfora da própria literatura, no seu trabalho incessante, a nos conduzir à dimensão em que Eros e Thanatos se enfrentam e se mesclam, enquanto o corpo irreconhecível da moça é a realidade, matéria disforme e permeada de signos, a nos pedir leitura, tradução, forma, representação.


Palavras-chave


Eros; Thanatos; representação literária; literatura portuguesa contemporânea; Filipa Melo.

Texto completo:

PDF

Referências


ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Trad. Ítalo Eugenio Mauro. São Paulo: 34, 1998.

ARIÉS, Phillipe. História da morte no Ocidente. Trad. Priscila Vianna de Siqueira. São Paulo: Saraiva/Ediouro, 2012.

AUERBACH, Erich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Tradução George Berbard Sperder. São Paulo: Perspectiva, 1976.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1977.

BARTHES, Roland. Aula. Trad. Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Cultrix, 1980.

BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega. Vol. III. 1995.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

BRANCO, Camilo Castelo. Amor de perdição. Col. Clássicos da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora, 2006.

BRANCO, Lucia Castello. Eros travestido: um estudo do erotismo no realismo burguês. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1985.

CAMÕES, Luiz Vaz de. Lírica I, II e III. Lisboa: Casa da Moeda, 1980.

CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva. Introdução à teoria dos quatro discursos. São Paulo: É Realizações, 2006.

D’ONOFRIO, Salvatore. Dicionário básico de cultura — o saber indispensável, os mitos eternos. Rio de Janeiro: Publit, 2009.

EVSLIN, Bernard. Heróis, deuses e monstros da mitologia grega. Trad. Marcelo Mendes. São Paulo: Arx, 2004.

FREUD, Sigmund. O mal-estar da civilização. Trad. Jayme Salomão. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Trad. Jayme Salomão In: Obras Completas. V.II. Versão em CD-ROM.

GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Martin Claret, 2009.

HANSEN, João Adolfo. Estranhando a semelhança. In: GUMBRECHT, Hans Ulrich, ROCHA, João Cezar de Castro (org.). Máscaras da mímesis. Rio de Janeiro: Record, 1999. Pp. 179-199.

HESÍODO. Teogonia. Trad. Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.

LEILLA, Állex. Henrique. Salvador: Domínio Públicco, 2001.

LIMA, Dayane Rouse Fraga. Este é o meu corpo que é dado por vós: sacrifício e redenção na obra de Filipa Melo. Revista Intersemiose, n.7, ano IV, pp. 15-31. Disponível em:

Acesso em 18/02/2018.

LIMA, Luiz Costa. Representação social e mimesis (versão on line). Disponível em: . Acesso em: 25/03/2018. (essa versão não é paginada).

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. São Paulo: Ática, 1989.

MELO, Filipa. Este é o meu corpo. São Paulo: Planeta, 2004.

MELO, Filipa. Os últimos marinheiros. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015.

MELO, Filipa. Dicionário sentimental do adultério. Lisboa: Quetzal, 2017.

OVÍDIO. A arte de amar. Trad. David Jardim Jr. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

OVÍDIO. As metamorfoses. Trad. David Jardim Jr. Rio de Janeiro: Ediouro, 1983.

PLATÃO. Banquete. In: Diálogos. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril, 1972.

ROUGEMONT, Denis de. História do amor no Ocidente. Trad. Paulo Brandi e Ethel Brandi Cachapuz. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

S/A. As mil e uma noites. Trad. Paulo Bazaglia. São Paulo: Paulus, 2014.

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SPONVILLE, André-Comte. Pequeno tratado das grandes virtudes. Trad. de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, São Paulo, 1999.

SWIFT, Jonathan. As viagens de Gulliver. Trad. Therezinha Monteiro Deutsch. São Paulo: Nova Cultura, 1996.

TELLES, Lygia Fagundes. Nada de novo na frente ocidental. In.: Invenção e memória. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp.113-120.

VALDIVIA, Olivia B. A Linguagem Interminável dos Amores. Jornal do Federal, n. 34, 1993.

VERNANT, Pierre. O universo, os deuses, os homens. Trad. Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

VIEIRA, Padre Antônio. Sermões. Porto Alegre: Edelbra, 1998.

WATT, Ian. Mitos do individualismo moderno. Trad. Mario Pontes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.




DOI: http://dx.doi.org/10.13102/lm.v10i1.3649

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2019 Revista Légua & Meia

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

Indexadores:

 Resultado de imagem para crossref