QUANDO A FILOSOFIA SE TORNA SEMENTE: VIAGEM ATRAVÉS DE MUNDOS ARTEFACTUAIS E (IM) PROVÁVEIS ENCONTROS.

Marília Mello Pisani

Resumo


Neste texto vamos fazer uma viagem com Donna Haraway e diferentes seres multiespécies pelos espaços úmidos e áridos da Terra. Foram mobilizadas estratégias narrativas aprendidas com Haraway, como a cama de gato [cat's cradle], a difração, o olhar tocante [fingery eyes] e o filtro ultravioleta. Estas estratégias são essenciais para provocar um giro (tropos) nas categorias epistemológicas coloniais, produzindo um pensamento nem moderno nem pós-moderno, mas a-moderno, cujas consequências são: fazer ver como se constitui o par modernidade/colonialidade; evitar a noção de progresso, Luzes, fins ou origens; mobilizar a noção de natureza artefactual/ naturezacultura para olhar as produções semiótico-políticas da natureza, i.e., a produção artificial da natureza; possibilitar uma leitura cosmopolítica da biologia; problematizar a categoria de indivíduo a partir da noção de simbiose e holobionte; e avançar da noção de representação política para a de articulação e aliança. Haraway tece uma teia de elementos complexos para lidar com a complexidade mesma da sobrevivência da Terra no século XXI. Com a sua ajuda e a de outras tantas vozes, atravessamos alguns espaços de memórias comuns (topos) para, caminhando junto, abrir estratégias de pensamento e de ação que permitam articular as diferentes formas de (re)existência. O texto convida a uma nova postura do corpo. Para ser lido é necessário uma abertura da percepção sensível, muito mais do que da consciência. A linguagem faz muito mais do que diz. Não iremos apresentar conceitos, mas fazê-los atuar. Este é um texto para aprendizado conjunto de uma linguagem desinstitucionalizada que permita fazer vínculo para além dos espaços acadêmicos, criando encontros (im)prováveis. É assim que esperamos que a filosofia se torne semente e fertilize espaços mais úmidos e plenos de húmus.


Texto completo:

PDF

Referências


ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. In: Estudos feministas, ano 8, [1981] 2000. (online)

BARAD, Karen. Diffractions: differences, contingencies, and entanglements that matter. In: Meeting the universe halfway. Quantum physics and the entanglement of matter and meaning. Duke University Press, 2007, p. 71-95.

__________. Performatividade pós-humanista: para entender como a matéria chega à matéria. In: Revista Vazantes, volume 1, n. 1, 2017. (online)

BELLACASA, Maria Puig de la,. Nothing comes without its world: thinking with care. In Sociological review, 60:2, Blackwell Publishing, maden, USA, 2012.

__________. Matters of care: speculative ethics in more than human worlds. posthumanities 4. Minneapolis, London: University of Minnesota Press, 2017.

__________. Ethical doings in naturecultures. Paper presented on Sociological Review Conference on The Politics of Imagination, 2009. (online)

BRANDÃO, Marco A. Leite. São Carlos do Pinhal nos tempos da...Casa Grande e Senzala. Editora: do Autor, 2008.

BUTLER, Judith. Violência, luto, política. In: BAPTISTA, Maria M. Gênero e Performance: textos essenciais 1. Coimbra: Grácio Editor, 2018.

BUTLER, Octavia E. A parábola do semeador. Tradução: Carolina Caires Coelho. São Paulo, Morro Branco Editora, 2018.

CALLAHAN, Manuel. Zapatismo beyond Chiapas. In: SOLNIT, David (ed). Globalize liberation: how to uproot the system and build a better world. San Francisco: City Lights Books, 2004. (online)

__________. Insurgent learning and convivial research: Universidad de la Tierra. In: Blog Ecoversities. Califas, 2018. (online)

DESPRET, Vinciane. En finir avec l'innocence: dialogue avec Isabelle Stengers et Donna Haraway. In DORLINS, Elsa; RODRIGUES, Eva. Pensar avec Donna Haraway. Actuel Marx Confrontation, Presses Universitaires de France, 2012, p. 23-45.

__________. What would animals say if we asked the right questions? posthumanities 38. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2016. (online)

__________. The becomings of subjectivity in animal worlds. In: Journal Subjectivity, 2008, p. 1-17. (online)

DONALD, James; HUNTER, Ian; COHEN, Jeffrey Jerome; GIL, José. Pedagogia dos monstros. Os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Organização e tradução: Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

DORLINS, Elsa; Rodriguez, Eva. Pensar avec Donna Haraway. Actuel Marx Confrontatiosn, Presses Universitaires de France, 2012.

EVARISTO, Conceição. Ave serena. In: Poemas de recordação e outros poemas. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

FREEMAN, Jo. Trashing: the dark side of sisterhood. In: MS Magazine, April, 1976. p. 49-51. (tradução livre: Trashing: o lado sombrio da sororidade. Acesso em: https://we.riseup.net/radfem/trashing-o-lado-sombrio-da-sororidade-jo-freeman)

__________. The tyranny of structurelessness. In: Berkeley Journal of Sociology, vol. 17, 1972-73, pp. 151-165. (online)

GARCÍA, Edgardo. Learning in a context of war. In: site Ecoversities, 2017. (online)

GREBOWICZ, Margret; MERRICK, Helen. Beyond the cyborg: adventures with Donna Haraway/ with a “seed bag” by Donna Haraway. Columbia University Press, 2013.

HARAWAY, Donna, Crystals, fabrics, and fields: metaphors of organicism in 20th Century developmental biology. Berkeley, California: North Atlantic Book, 1976.

__________. Primate vision: gender, race, and nature in the world of modern science. New York: Routledge, 1989.

__________. Simians, cyborgs, and women: the reinvention of nature. Routledge, Edição: 1, 1991.

__________. A game of cat’s cradle: science studies, feminist theory, cultural studies. In Configurations, volume 2, number 1, Johns Hopkins University Press, 1994.

__________. Cyborgs and symbionts: living together in the new world order. In: GRAY, C. H.; MENTOR, S.; FIGUEROA-SARRIERA, H. J. The cyborg handbook. Routledge: New York, 1995(a), p. xi-xx.

__________. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. In: Cadernos Pagu, Núcleo de Estudos de Gênero, UNICAMP, n. 5, 1995(b).

__________. Modest_Witness@Second_Millennium. FemaleMan©_Meets_OncoMouse™. Feminism and technoscience. Second edition. New York, NY: Routledge, 1997.

__________; GOODEVE, Thyrza Nichols. How like a leaf. Routledge, 1999.

__________. The Haraway reader. London, New York, Routledge, 2004(a).

__________. ‘Gênero’ para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra. In: Cadernos Pagu, Núcleo de Estudos de Gênero, UNICAMP, n. 22, 2004(b).

__________. Companion species manifesto: dogs, people, and significant otherness. Prickly Paradigm Press, 2005.

__________. When species meet. posthumanities 3. Minneapolis, London: University of Minnesota Press, 2008.

__________. Manifesto ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo socialista no final do século XX. In: HARAWAY, Donna, KUNZRU, Hari, TADEU, Tomaz (Org. e Trad.), Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

__________. Foreword by Donna Haraway. In: KING, Katie. Networked Reenactments. Stories Transdisciplinary Knowledges Tell. Duke University Press, 2011(a).

__________. A partilha do sofrimento: relações instrumentais entre animais de laboratório entre animais de laboratório e sua gente. In: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 17, n. 35, p. 27-64, jan./jun. 2011(b).

__________; Azeredo, Sandra. Companhias multiespécies na naturezacultura: uma conversa entre Donna Haraway e Sandra Azerêdo. In: MACIEL, Maria E. (ed.). Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica,. Florianópolis: editora UFSC, 2011(c).

__________. Les Promesses des Monstres: politique régénératives pour d'autres impropres/ inapproprié-e-s. In: DORLINS, Elsa; RODRIGUEZ, Eva. Pensar avec Donna Haraway. Actuel Marx Confrontation, Presses Universitaires de France, 2012, p. 159-229.

__________. Staying with the trouble: making kin in the chthulucene. Duke University Press, 2016.

__________. Raça: doadores universais em uma cultura vampira. In: LESSA, Patrícia, GALINDO, Dolores (org.). Relações multiespécies em rede: feminismos, animalismos e veganismos. Maringá: EDUEM, 2017.

HECHT, Susanna; COCKBURN, Alexander. The fate of the forest: developers, destroyers, and defenders of the Amazon. University of Chicago Press edition, 2010.

HOLMGREN, David. Permacultura: princípio e caminhos além da sustentabilidade. Porto Alegre: Via Sapiens, 2013.

KRENAK, Ailton. Mais que ideias, Chico Mendes projetou uma Utopia (entrevista), 2017. Acesso em 15/05/2020. https://www.xapuri.info/historia-social/krenak-chico-mendes-utopia/

LAGROU, Els. Nisun: A vingança do povo morcego e o que ele pode nos ensinar sobre o novo coronavírus. In: Blog da Biblioteca Virtual Pensamento Social, 2020. (online)

LIMA, Júnia M. T. de. As subversões do tempo nos comunicados zapatistas. In: Revista de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2014. (online)

LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006.

LYKKE, Nina. To be a cyborg or a goddess? In: Journal gender, technology and development. London, March 1997. (online)

MARCOS, Subcomandante Insurgente. En algum lugar de la selva Lancadona: aventuras e desventuras de Don Durito. México, 2017.

__________. Entre la luz y la sombra. Discurso proferido em maio de 2014. (online)

MARCUSE, Herbert. Transvaluation of values and radical social changes (five lectures, 1966-1976). Edited by JANSEN, P, SURAK, Sarah, REITZ, C. York University, Toronto, 2017.

MARGULIS, Lynn; DORION, Sagan. O que é Vida? Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2002.

MATEBENI, Zethu. Perspectivas do Sul sobre relações de gênero e sexualidades: uma intervenção queer. In: Rev. antropol. São Paulo: USP, v. 60 n. 3, 2017, p. 26-44. (online)

McCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2010.

MINH-HA, Trinh T.. Difference: a special Third World Women issue. In: Feminist Review, No. 25 (Spring, 1987), pp. 5-22. (online)

MOORE, Niamh. A cat's cradle of feminist and other critical approaches do participatory research. University of Bristol and the AHRC Connected Communities Programme, September, 2018. (online)

NASCIMENTO, Beatriz; RATTS, Alex (org). Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa oficial, 2006.

PALMA, Rogério da. Liberdade sob tensão: negros e relações interpessoais na São Carlos pós-abolição. Tese de Doutorado, Departamento de Sociologia da UNiversidade Federal de São Carlos. São Carlos: UFSCar, 2015.

PEREZ, Pietra Cepero Rua. A produção da floresta em "pé": RESEX Chico Mendes (AC), do projeto a realização. Dissertação de Mestrado, Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2018.

PERRA, Hija de. Interpretações imundas de como a Teoria Queer coloniza nosso contexto sudaca, pobre de aspirações e terceiro-mundista, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados com a heteronorma. In: Revista Periódicus, v. 1, n. 2, 2014.

PISANI, Marilia; TOSOLD, Léa. To become an escarabajo: toward radical pedagogies and insurgent learning inspired by Herbert Marcuse and feminist antiracist epistemologies. Texto apresentado no Congresso da International Herbert Marcuse Society. University of California, Santa Barbara, 2019. (online)

PRADO JR, Bento. Vida e Filosofia [mímeo para discussão em curso na pós-graduação em filosofia] UFSCar, São Carlos, 2007.

PRIMAVESI, Anna. Sacred Gaia. Holistic theology and earth system science. London, USA, Canada: Routledge, 2000.

RICH, Adrienne. Notes toward Politics of Location. In: Blood, Bread, and Poetry: Selected Prose 1979-1985. W. W. Norton & Company: Reissue edition, 1994.

__________. Women and Bird. In: RICH, A. What Is Found There: Notebooks on Poetry and Politics, 2003, p. 3-8.

SANDOVAL, Chela. Feminism and Racism: a report on 1981 National Women's Studies Association Conference. In: ANZALDÚA, Gloria. Making Face, Making Soul, Haciendo Caras: creative and critical perspectives by Feminists of Color. Aunt Book, 1990, pp. 55-73.

__________. Nuevas ciencias. Feminismo cyborg y metodología de los oprimidos. In: HOOKS, bell; BRAH, Avtar; SANDOVAL, Chela; ANZALDÚA, Gloria; MORALES, Aurora L.; BHAVNANI, Kum-Kum; COULSON, Margaret. M.; ALEXANDER, Jacqui; MOHANTY, Chandra T.. Otras inapropiables. Madrid: Traficantes de Sueños, 2004.

__________. Methodology of the oppressed. Minneapolis, London: The University of Minnesota, 2000.

SIMAKAWA, Viviane V. (viviane v.). Por inflexões decoloniais de corpos e identidades de gênero inconformes: uma análise autoetnográfica da cisgeneridade como normatividade. Dissertação de Mestrado em Cultura e Sociedade, Instituto de Humanidades, Artes e Ciências, Universidade Federal da Bahia, 2015.

SILVA, Denise Ferreira da. A Dívida Impagável: lendo cenas de valor contra a flecha do tempo, 2017. Acesso em: https://issuu.com/amilcarpacker/docs/denise_ferreira_da_silva_-_a_di__vi

SOUFOLIS, Zoë. The Cyborg, it’s Manifesto and their relevance today: some reflections. In: Journal of Media and Communication, volume 6.2, 2015.

SOUZA, João José Veras de. Seringalidade: o estado de colonialidade na Amazônia e os condenados da floresta. Manaus: Editora Valer, 2017.

TOSOLD, Léa. Autodeterminação em três movimentos. Tese de Doutorado, Departamento de Ciências políticas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

ZOE, Todd. An indigenous feminist’s take on the ontological turn: ‘ontology’ is just another word for colonialism. In: Journal of Historical Sociology 29(1): 4-22, March 2016.

Material audiovisual e arquivo:

Aliança dos Povos da Floresta, acervo de jornais, artigos e reportagens de 1987 a 2020. Acesso: https://acervo.socioambiental.org/acervo/tags/alianca-dos-povos-da-floresta

Ecoversities, acervo de textos sobre educação insurgente. Acesso: https://ecoversities.org

FELDMAN, John (director). Symbiotic earth: a documentary. Hummingbird Films, 2017.

GERBER, Raquel; NASCIMENTO, Beatriz. Orí. https://negrasoulblog.wordpress.com/2016/08/25/309/

HARAWAY, Donna; TERRANOVA, Fabrizio (director). Storytelling for earthly survival, film, 2016.

KRENAK, Ailton. Vozes da Floresta, entrevista sobre a luta de (re)existência dos Povos da Floresta e a criação da Aliança dos Povos, 2020: https://infoamazonia.org/pt/2020/04/portugues-documentario-na-web-conta-historia-de-alianca-dos-povos-da-floresta/#!/story=post-46751




DOI: http://dx.doi.org/10.13102/ideac.v1i42.5479

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


eISSN: 2359-6384