TRABALHADORES DA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA COMO USUÁRIOS DE PLANOS DE SAÚDE: PERTENCIMENTOS IMAGINÁRIOS E EFEITOS REAIS

Thereza Christina Bahia Coelho, Andrei Souza Teles, Milla Pauline da Silva Ferreira

Resumo


O consumo de serviços de saúde é maior nos grupos populacionais com melhores condições socioeconômicas, mesmo no Sistema Único de Saúde (SUS), repercutindo na vida não apenas dos usuários do SUS, mas, também, na saúde, condições de vida e trabalho daqueles que propiciam o cuidado. O objetivo desse artigo foi identificar diferenças na adesão dos trabalhadores aos planos de saúde que poderiam ser atribuídas a inserções de classe, analisar tais diferenças e explorar possíveis implicações na condição de trabalhador do SUS. Foram entrevistados 49 trabalhadores de dez unidades da Estratégia Saúde da Família (ESF) de dois municípios do estado da Bahia. Foi encontrado que 50% dos trabalhadores da ESF do município de menor porte, concentrava Agentes Comunitários com maior escolaridade, possuíam plano de saúde, contra 22% do município maior. Trabalhadores sem plano relataram diferenciação ostensiva de clientela em serviços com dupla entrada levando-os a reivindicar um tratamento diferenciado (ter plano de saúde ou não pegar fila). A análise dos relatos mostrou um pertencimento imaginário de classe antagônico aos interesses do SUS não reconhecidos como contingentes aos dos próprios trabalhadores. Vítimas da violência simbólica perpetrada cotidianamente nos serviços e fora deles, esses trabalhadores almejavam privilégios da classe superior sem atentarem para as contradições do seu pensamento e para as consequências que sujeitam a si e demais usuários do SUS.


Palavras-chave


Sistemas de Saúde; Saúde da Família; Trabalhadores de Saúde; Plano de Saúde

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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/rscdauefs.v6i1.1156

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