“O LUGAR DE MULHER É NO LAR. O TRABALHO FORA DE CASA MASCULINIZA”: UMA ANÁLISE DISCURSIVA DO LAR FEMININO NO JORNAL DAS MOÇAS NA DÉCADA DE 50

Kyrlian de Araújo Lima Pedreira Lapa

Resumo


A pesquisa realizada investiga a construção discursiva da mulher associada ao lar na revista Jornal das Moças na década de 1950. Através do aparato teórico da Análise do Discurso de Linha Francesa (ADLF), que relaciona sujeito, história, ideologia e língua, analiso como se constrói a imagem da mulher submissa ao homem, relegada ao lar e responsável pela moral e manutenção dos bons costume e boa aparência social da família.
A ADLF, surgida na década de 60, redireciona a concepção de discurso, considerando-o a materialização da ideologia. Michel Pêcheux (1969) situa os estudos do discurso entre três áreas do conhecimento: o materialismo histórico, como teoria das formações sociais e de suas transformações, compreendida aí a teoria das ideologias; a linguística como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação ao mesmo tempo; a teoria do discurso, como teoria da determinação histórica dos processos semânticos. Tudo isso aliado ao princípio de inconsciente trazido da psicanálise e que constitui os sujeitos.
Para Pêcheux, o discurso é “efeito de sentido entre os pontos A e B”, sendo A e B compreendidos como a projeção do lugar ocupado pelos sujeitos no discurso. O discurso é, assim, a materialização da ideologia através da linguagem. Dessa forma, é necessário compreender que o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. Assim, inconsciente e ideologia funcionam para produzir determinado discurso, a partir de uma posição dada, em uma conjuntura dada, isto é, numa certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classes.
À luz da ADLF, analiso o periódico Jornal das Moças, que foi uma revista de circulação no Brasil entre 1914 e 1968. Destinada ao público feminino, a revista abordava temas considerados “de mulher” como moda, cozinha, decoração do lar, afazeres domésticos, casamento, costura, vida das celebridades, educação familiar entre outros assuntos.
Utilizo também nas análises a contribuição de Louis Althusser e sua concepção de Aparelhos Ideológicos de Estado, essencial para compreender o funcionamento da ideologia e a difusão das ideias dominantes. Para o autor, cabe aos Aparelhos Ideológicos a difusão da ideologia dominante que funciona de modo a homogeneizar os sujeitos.
Dito isto, não busco desvendar a materialidade discursiva da revista, no sentido de descobrir o que está por trás do discurso, ou o que este “quer dizer”, mas procuro evidenciar como se constrói a imagem discursiva da mulher no lar no corpus utilizado para análise.


Texto completo:

PDF

Apontamentos

  • Não há apontamentos.