OLHAR EM TRÂNSITO: IMAGENS DE SERTÃO E SERTANEJO NO DIÁRIO DE UMA EXPEDIÇÃO DE EUCLIDES DA CUNHA

Artur Vitor de Araújo Santana

Resumo


No desenrolar do processo histórico do que viria a ser o Brasil, a ideia de sertão ocupa
um lugar central na imaginação social brasileira, seja enquanto elemento definidor de uma
percepção dos espaços ou regiões seja como suporte de memórias e identidades. Sertão passa
a ser uma categoria essencial a partir da qual se imagina o espaço, a cultura e a nação
brasileira; o Brasil é algo que se pensa como constituído de litoral e sertão (Soares, 2009).
A relevância do signo sertão para pensar o Brasil ganha acento entre o final do século
XIX e as primeiras décadas republicanas, em especial quando o sertanejo assume, em
substituição ao indígena, a primazia enquanto perfil histórico do nacional autêntico. Euclides
da Cunha já tratava de questões ligadas ao sertão e ao sertanejo, desde a escrita do artigo
intitulado A nossa Vendéia, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, no qual associava a
contestação dos conselheristas aos camponeses contra-revolucionários franceses da região
Vendéia, ao tempo em que buscava explicar o revés militar a partir de elementos ligados ao
meio físico e natural da região onde se travava o combate. Em 17 de julho de 1897, e com o
mesmo título do artigo anterior, retoma retorna ao assunto, reforçando os argumentos sobre o
papel jogado pela natureza na luta entre os seguidores de Antonio Conselheiro e os exércitos
republicanos.
Euclides escreve sobre Canudos e os sertões de longe, sem nunca ter estado na região
do conflito. De qualquer modo, em razão dos textos publicados o engenheiro militar foi
convidado pelo jornal a desempenhar o papel de correspondente de guerra. Chegou a Salvador
em 7 agosto de 1897, daí partindo para o sertão de Canudos em final do referido mês,
viajando de trem até Queimadas, onde chegou em 1º de setembro, daí seguindo a cavalo até
Monte Santo (6 de setembro) e posteriormente para o arraial de Canudos (16 de setembro),
onde permaneceu até o dia 3 de outubro. Neste intervalo de tempo, além de diversos
telegramas, Euclides da Cunha enviou para O Estado de São Paulo uma série de textos com
registros e impressões da viagem (paisagem, conflito, etc), configurando-se como o Canudos:
Diário de uma expedição (2003), sendo publicado em 1939, pela Livraria José Olympio
Editora, sob a organização de Antônio Simões dos Reis.
Tomamos como objeto desta pesquisa investigar as imagens de sertão e de sertanejo
presentes no Diário de uma expedição de Euclides da Cunha (2003). Tensionando obra, autor
e a época procuramos perceber as permanências e deslocamentos da percepção euclidiana em
relação ao sertão baiano-canudense e sua gente, através do confronto entre as primeiras
imagens, expostas nos artigos A nossa Vendéia e aquelas que vão sendo (re)elaboradas ao
longo da viagem para a região conflagrada de Canudos. É possível perceber que o olhar
ativado, fruto do contato real com a paisagem física e social do norte da Bahia, opera
desenquadramentos na percepção de Euclides da Cunha, embora predomine a prefiguração do
momento da partida.


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