A NOMEAÇÃO NO TRACTATUS DE WITTGENSTEIN

Juan Erlle Cunha de Oliveira

Resumo


O que está em jogo na exigência de significado do nome é o postulado da figuração da
linguagem frente ao mundo. Não havendo objeto, não há como estabelecer figuração;
não havendo nome, não há proposição. Ora, se os objetos são simples e fixos (Cf. 2.02),
inalteráveis em sub specie aeterni, mas variável apenas pelas possibilidades dos seus
arranjos com outros, os seus nomes não podem ser definidos (Cf. 3.261; PINTO, 1998,
p. 185), caso contrário o valor de verdade de uma proposição dependeria previamente
da definição do nome que emprega, isto é, de outra proposição e assim ad infinitum,
desmoronando a tese isomorfista do Tractatus. O nome também é simples e fixo
(PINTO, 1998, p. 197), mas articulados com os elementos da proposição/figuração tal
qual os objetos nos estados de coisas, como aponta o aforismo 3.21.Ademais, da
“inefabilidade da existência” do objeto (Cf. Hintikka & Hintikka, 1994), isto é, que seja
impossível exprimir a sua existência - “Não podemos pensar em nenhum objeto fora da
possibilidade de sua ligação com outros” (Cf. 2.0121) – tem-se como contraparte a
indefinibilidade do nome. Assim, o nome não é independente da proposição de que é
elemento constituinte. Notemos que no início do aforismo 3.221, Wittgenstein diz: “Os
objetos, só posso nomeá-los”. O que se entende pelo verbo “posso” e a ação de nomear
(“nomeá-los”)? O rubicão deste trabalho consiste no fato de que um nome não está
inscrito na natureza do objeto, tampouco é expediente da lógica selecionar qual nome
deve nomear qual objeto, como atesta o próprio autor. Apenas se exige que uma
correspondência deve haver. Neste sentido, pretendemos investigar a possível atuação
de um sujeito transcendental capaz de conferir um nome a um objeto determinado e o
princípio do contexto, como põe o aforismo 3.3. Não obstante, a tese do sujeito
transcendental não implica em verter a nomeação em linguagem, posto que habita fora
dos limites do mundo, no inefável. É por isso que alguns comentadores cotejam esse
“segredo” do Tractatus a ponto de considerar a necessidade de um Deus. (Cf. SALLES,
2006a). É preciso salientar que esse problema não é suficientemente resolvido pelo
princípio do contexto (Cf. 3.3), pois, embora a própria proposição indique a que objeto
um nome se refere, ainda não explica quem ou o quê dá um nome x a um objeto x`. A
pertinência desse tema não se esgota no Tractatus. Trata-se de uma questão que tem
desdobramentos importantes para a compreensão do sentido da obra futura de
Wittgenstein, como as Investigações Filosóficas, na ostensão linguística, o que
fundamenta a pertinência desse plano de trabalho.


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