A RECEPTIVIDADE AOS PROTESTANTES EM FEIRA DE SANTANA (1937-1955)

Leonardo Nascimento Araújo

Resumo


Esta pesquisa investiga a reação dos grupos religiosos à presença protestante em Feira de Santana provocando disputas no campo religioso feirense abrangendo o período de 1937 a 1955, quando foi implantada em Feira de Santana a primeira igreja protestante, sob a direção do missionário Roderick Gillanders e sua esposa, a missionária Isobel Gillanders. Esta chamava-se Igreja Evangélica Unida e professava o Congregacionalismo como confissão de fé protestante.
Para compreender o Congregacionalismo em Feira de Santana, é pertinente revisitar a sua chegada em solo brasileiro. No capítulo Os sentidos da árvore e da democracia: uma história dos congregacionais no Brasil, incluído na obra Fiel é a Palavra: leituras históricas dos evangélicos no Brasil, Lyndon de Araújo dos Santos trata da influência protestante do médico Robert Reid Kalley e sua esposa Sarah Kalley estabelecendo-se na cidade de Niterói (RJ) em 1855. Segundo Santos, Kalley era um representante tanto das tradições protestantes inglesas, como do universo congregacionalista (SANTOS, 2011, p. 136) e, sobre o processo de institucionalização e formação da igreja com suas características denominacionais, Santos afirma:
A primeira igreja foi fundada em 1858, com o batismo de brasileiros e portugueses que formaram o núcleo da Igreja Evangélica Fluminense. O nome representava a forma de governo (igreja autônoma e independente), a identidade religiosa (evangélica) e o lugar de seu pertencimento (Fluminense). O perfil social de seus membros foi sendo estabelecido entre as pessoas simples, negros escravos e forros, brancos, pobres, trabalhadores e mulheres (...) Dessa forma, as igrejas congregacionais tiveram a liberdade de associação em comunidades livres, sem impedimentos, embora tenham sofrido perseguições por parte da Igreja Católica (SANTOS, 2011, p. 138).
Pastores e missionários vindos da Europa e posteriormente dos EUA chegaram no País com a intenção de fazer proselitismo e converter os brasileiros às doutrinas protestantes. Seguindo a linha do protestantismo de missão, a Igreja Evangélica Fluminense foi a primeira a ser implantada em solo brasileiro com esse fim (LÉONARD, 2002). Os anglicanos, por sua vez, chegaram em 1819, porém, diferente dos congregacionais, os episcopais realizavam os seus cultos em inglês, sem intenção de proselitismo direto (SILVA, 2017).
A cidade de Feira de Santana, no interior da Bahia tornou-se um dos municípios visitado por protestantes realizando a colportagem, isto é, venda de Bíblias e materiais de literatura, inicialmente em 1889, com as atividades do missionário presbiteriano Rev. George Chamberlain, que distribuiu Bíblias e folhetos evangélicos e realizou cultos públicos (TRABUCO, 2014, p. 94).
Neste período o município de Feira de Santana, passava por mudanças no âmbito populacional, econômico, político e social. Localizada no interior da Bahia, o município incorporou, paulatinamente, características de zona urbana com a chegada de tecnologias, novos costumes e o deslocamento de famílias interioranas bem como de outros Estados do Nordeste para trabalhar e viver na cidade (OLIVEIRA, 2012).
O Protestantismo configura-se como parte dessas mudanças ocorrentes em Feira de Santana. Como afirma Aline Aguiar: “para se entender uma cidade, pode-se observar cada aspecto do seu cotidiano, não tem nada melhor do que analisar as formas de diversões, bem como as sociabilidades tecidas em suas malhas” (SANTOS, 2016, p. 152). Gradativamente, o Protestantismo encontrou-se entre as formas de sociabilidades presentes no município de Feira de Santana.
Apesar dos esforços do Rev. Chamberlain, não houve a formação de uma igreja a partir da sua iniciativa, pois o mesmo precisou ser transferido para Cachoeira. Zózimo Trabuco afirma a respeito da chegada do casal Gillanders:
Em 1935 chegaram a Feira de Santana missionários da Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, o casal neozelandês Isobel C. Gillanders e Roderick Gillanders. O casal organizou, em 1937, a Igreja Evangélica Unida, primeira igreja local do protestantismo em Feira de Santana (...) Nas memórias da Igreja Evangélica Unida, a missionária Isobel Gillanders descreveu a divisão das atividades “entre fundar uma igreja e visitar cidades vizinhas e o mercado local para vender Bíblias” (TRABUCO, 2014, p. 95).
Na obra memorialística A história inacabada, a missionária Isobel Gillanders descreveu alguns desses conflitos resultantes da não aceitação das doutrinas protestantes pelos católicos feirenses, devido à hegemonia da Igreja Católica que não admitia a presença de outras doutrinas concorrentes, a exemplo da mensagem protestante divulgada pelo casal Gillanders em Feira de Santana na implantação da Igreja Evangélica Unida. (GILLANDERS,1990). No decorrer dos anos, os conflitos foram aplacados à medida em que as denominações protestantes se expandiam por Feira de Santana, ampliando o campo religioso na cidade.
Na década de 1950, a Igreja Evangélica Unida desligou-se da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil. Alguns fatores poderiam ter propiciado esse desligamento, como plena autonomia enquanto comunidade local, ou seja, sem afiliações denominacionais ou de ordem político-eclesiástica, sendo que, os motivos desse desligamento ainda são alvos de investigação histórica. A Igreja Evangélica Unida, entretanto, manteve fortes vínculos doutrinários com a UESA (União Evangélica Sul-Americana) desde a década de 1940. Na mesma década, a igreja conclui a construção do seu prédio para atividades cúlticas (OLIVEIRA, 2007).


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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/semic.v0i22.3922

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