O CASAMENTO, SOB A ÓTICA DA FIGURA FEMININA, NA CONTÍSTICA DE SONIA COUTINHO

Fernanda dos Santos Silva

Resumo


As narrativas acompanham a humanidade sejam elas orais ou escritas. Além de contar histórias, ocupam a função de transmissão de concepções de mundo, experiências individuais e coletivas. Narrar é, também, assumir um ponto de vista para enunciar a história. A história nos é transmitida a partir de perspectivas e, durante muito tempo, foi predominante e, muitas vezes, única, a perspectiva a partir da qual se falou sobre temas do universo feminino.
Reconhecendo a necessidade de analisar outras perspectivas, analisamos, neste trabalho, obras da escritora baiana Sonia Coutinho a fim de compreender como se estabelece o discurso sobre o casamento pelas personagens presentes nos contos.
A literatura de autoria feminina é, sobretudo, um caminho importante para problematizarmos as representações ou não representações da mulher no âmbito literário e, de acordo com Luiza Lobo (2000), é um caminho pelo qual perpassa o discurso de “alteridade”:
Na literatura de autoria feminina, como na literatura de autoria negra ou africana, percebe-se a existência de um discurso de alteridade político, na medida em que seus representantes se assumam e se declarem como tal, isto é, [...] como parte de uma etnia não prestigiada ou como mulheres. A literatura de autoria feminina se constitui naquelas obras em que a literatura se exerce como tomada de consciência de seu papel social. (LOBO, 2000, p.3)
É pertinente que não desvinculemos da narrativa o discurso, pois como nos diz Gérard Gennete (1995), narrativa e discurso estão interligados: “História e narração só existem para nós, pois, por intermédio da narrativa. Enquanto narrativo, vive da sua relação com a história que conta; enquanto discurso, vive da sua relação com a narração que o profere” (GENNETE, 1995, p.47). Nesta pesquisa, tivemos como objetivo investigar o discurso das personagens e como este se articula com os debates sobre gênero e identidade. A escolha do tema casamento se dá pela necessidade de rediscutir o papel de esposa, atribuído, ao decorrer da história, às mulheres.
De acordo com Georges Duby (1989), no período medieval, as mulheres, primeiramente, dentro de um sistema de vigilância familiar controlada pela figura do pai, são direcionadas a outra família. Após essa etapa, passam a ser vistas como garantia da sucessão familiar através do casamento, dessa forma, o fato de ser mulher as condiciona a um destino detalhadamente planejado e com finalidades, primordialmente, financeiras.
Casar tornava-se sinônimo de proteção e estabilidade. Não só o papel de esposa as acompanha, mas também o de mãe e quando esses papéis não eram desempenhados satisfatoriamente, sobre elas recaiam as críticas.
Esta ideia persiste no imaginário e se faz presente inclusive na produção literária. As lutas do movimento feminista vêm para tentar desestabilizar as imagens negativas que foram
construídas, histórica e socialmente, para as mulheres. A literatura de autoria feminina, segundo Luiza Lobo (2000), cumpre ainda mais o seu papel quando traz à tona outras vivências diferentes das convencionais para a mulher.
As análises feitas da contística de Sonia Coutinho nos permitem visualizar uma nova configuração de escrita e de perfil de mulher que se delineiam a partir das décadas de 60 e 70. Entendemos que as narrativas comportam uma multiplicidade de vozes e de identidades e, de certa forma, são representativas do sujeito moderno.


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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/semic.v0i22.4096

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