“MULHER E HUMOR”: UMA ANÁLISE DISCURSIVA DAS PIADAS DO JORNAL DAS MOÇAS DA DÉCADA DE 50

Victória da Silva Santana Araújo

Resumo


O período intitulado Anos Dourados compreendeu o intervalo entre os anos de 1946 e 1964. Esse período vai ser marcado por transformações político-econômicas principalmente no que concerne o quartel dos anos 50. O desenvolvimento brasileiro arranca em aceleração: a urbanização ganha mais fôlego e a industrialização se faz mais presente do que nunca, alavancando o consumo.
Aumentam-se, com a modernização brasileira, as vagas no mercado de trabalho e, para as mulheres, surgem oportunidades de emprego com o advento do setor terciário, bem como, segundo Pinsky (2014), surgem trabalhos considerados femininos, aumentando a demanda empregatícia. No entanto, concepções tradicionais ainda são mantidas envolvendo mudanças irrisórias nos modelos sociais dominantes. Mesmo com a possibilidade de “independência financeira da mulher, os ideais de casamento e moral sexual continuam em voga. A família ainda mantém o modelo conjugal e o principal mantenedor e chefe familiar é a figura masculina. O trabalho masculino é a principal fonte de renda dos recursos familiares e domésticos e à mulher cabe o papel ao qual foi destinada: a rainha do lar, responsável por manter a ordem doméstica e dedicar-se preferencialmente a manutenção do lar e dos filhos, bem como cuidar do marido.
A Revista Jornal das Moças servirá como difusor da ideologia dominante e principal mantenedora da ordem social e familiar, uma vez que era usada como aliada na educação das moças. Sendo uma das revistas mais populares no Brasil e ocupante do primeiro lugar na imprensa feminina durante muito tempo, vai ditar regras comportamentais e estabelecer os perfis femininos adequados e inadequados na época. O modo de abordagem e as temáticas dos artigos propagam a ideologia dominante do que é “ser mulher”, ideologia esta que se materializa nos discursos produzidos pela revista a partir das materialidades que o constituem.
Uma dessas materialidades, que será o escopo da análise de dados do artigo, são as piadas que compõem o Jornal das Moças. Nomeada Troças e Traços, a seção de piadas era fixa, oferecendo às leitoras, toda semana, chistes de variadas temáticas, algumas mais regulares que outras. Mesmo destinada ao público feminino, não é absurdo encontrar piadas que ridicularizam e inferiorizam as mulheres através do humor. Segundo Pinsky (2014), as mulheres são raramente representadas com característica positivas, sendo representadas depreciativamente.
Enfatiza-se aqui a relevância da utilização do gênero piada a nível das análises. Possenti (1998), argumenta que o gênero é um material de extrema importância para as Condições de Produção, além de considerar que as piadas veiculam uma ideologia que reproduzem os valores arraigados na sociedade, sendo aliado na investigação de determinada posição ideológica. Logo, entende-se as piadas como “peças linguísticas” sobre as quais é possível verificar o funcionamento ideológico, procurando analisar como, sob a máscara do divertimento e trivialidade, tais piadas constroem sentidos sobre a feminilidade.


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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/semic.v0i22.4122

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