VIA CRUCIS SERTANEJA: REPRESENTAÇÕES DOS CORPOS FEMININOS EM SEARA VERMELHA

Thaílla da Silva Sena

Resumo


A partir dos anos de 1930 o sertão emerge como tema e problema, tanto no campo da ciência, da poesia, como também em romances brasileiros. Dentre este conjunto de romances destaca-se Seara Vermelha, do escritor Jorge Amado, publicada no ano de 1946. A narrativa toma como cenário o sertão, a saga dos beatos, cangaceiros, retirantes expulsos das terras do latifúndio em direção a São Paulo. O livro traz uma novidade geográfica, posto que encena outra cartografia da Bahia na obra amadiana, na medida em que ali não recria a vida baiana nas ruas, becos e ladeiras de Salvador ou das cidades do Recôncavo, nem é ambientado em terras grapiúnas ou nas matas do cacau.
O romance é dividido em quatro partes. O prólogo, intitulado “A Seara”, em que Amado nos apresenta o tema central de seu livro: o latifúndio, e também os personagens e conflitos que serão desenvolvidos ao longo do romance, em particular, a família de Jucundina e Jerônimo, que é expulsa da terra e peregrina pelos Caminhos da Fome, livro primeiro, subdividido em A caatinga; O rio e O trem de ferro, onde dramatiza a diáspora de massas populacionais sertanejas em direção às terras paulistas.
Caminhos que desembocam nas “Estradas da esperança”, livro segundo, encabeçado pelos três filhos do casal, que fugiram de casa antes do êxodo: José (que se junta ao bando de Lucas Arvoredo), Jão (que se torna soldado da polícia militar e é designado para combater beato Estevão e seus seguidores), e Juvêncio, ou Nenén (que entra no exército como soldado, engaja-se na vida política, vira comunista e participa da Intentona de 1935). São, portanto, partes que se ocupam do cangaço, do messianismo e dos embates políticos do Partido Comunista e da Aliança Nacional Libertadora. O livro se encerra com A colheita, que, como indicia a metáfora, se volta para a reorganização do Partido Comunista.
Nos trabalhos sobre Seara Vermelha é recorrente a abordagem sobre a intenção política do romance. No plano de trabalho que vem sendo desenvolvido colocamos em questão não apenas a intenção política do romance, mas propomos, sobretudo, investigar a representação amadiana de sertão e do sertanejo, inventariando as circunstâncias históricas que condicionam a narrativa. É, pois, sobre a representação dos sujeitos sertanejos que pretendemos colocar em questão neste trabalho. Mais especificamente, investigar a representação dos corpos femininos, suas afetividades e desejos no romance Seara Vermelha, indagando como, no obra, representações sobre a paisagem-sertão constroem visões sobre os corpos femininos lidos enquanto sertanejos.
A importância do recorte de gênero no trabalho se dá, especialmente, por questionar a ideia de um “sujeito humano universal”, e o androcentrismo na ciência. A proposta se
justifica pela quase inexistência de trabalhos sobre a temática proposta e diferenciar-se da maioria das análises sobre a obra de Jorge Amado, que priorizam os romances ambientados na cidade da Bahia ou a saga do cacau. Nesse sentido, o trabalho pode contribuir para a ampliação do conhecimento científico acerca da construção das representações sobre o corpo na obra amadiana, como também, para colocar em discussão o papel das narrativas literárias na elaboração de imagens e estereótipos sobre o corpo da mulher sertaneja.


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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/semic.v0i22.4278

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