Sujeito nulo no português brasileiro: variação estável ou mudança em curso?

Aline Miyuke Miyamoto, Dircel Aparecida Kailer

Resumo


De acordo com a teoria gerativa, em sua formulação, o parâmetro do sujeito nulo apresentava um valor binário, representado pelos valores negativo ou positivo. Se é uma língua de sujeito nulo, possui um valor positivo (por exemplo, a língua italiana). No entanto, se é uma língua de sujeito preenchido, possui um valor negativo (um exemplo é a língua inglesa). O português brasileiro (PB) é uma língua natural, isto é, transforma-se com o decorrer do tempo. Assim como outras línguas, o PB apresenta uma categoria diferente, com sujeito nulo “parcial” (DUARTE, 2018). Estudos indicam que há uma predisposição a preencher a posição de sujeito na língua pelos falantes, antes considerada língua de sujeito nulo. Alguns dos fatores são: 1) houve uma reconfiguração no quadro dos pronomes pessoais do caso reto (as formas gramaticalizadas você e a gente são empregadas como pronomes pessoais); 2) a desinência flexional verbal não é mais suficiente para designar a pessoa gramatical/discursiva (eu/você/ele ou ela/a gente falava; nós falávamos; vocês/eles ou elas falavam). Por essas razões, está ocorrendo uma mudança na marcação desse parâmetro. Com base nos dados do Atlas Linguístico do Brasil, pretende-se, como objetivo geral, verificar se o preenchimento com o pronome-sujeito é predominante ou não na fala de 31 informantes desse projeto, distribuídos pelo Brasil em duas regiões e quatro capitais: na Região Sul – Florianópolis e Curitiba e na Região Centro-Oeste – Campo Grande e Cuiabá. Analisa-se a fala desses 31 informantes e codificam-se os dados por meio do Programa GoldVarb X; consoante às variáveis linguísticas (pessoa gramatical/desinência verbal explícita ou implícita) e às variáveis extralinguísticas (sexo, grau de escolaridade e localidade). Esta pesquisa está alicerçada nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística Quantitativa (LABOV, 2008 [1972]) e da Teoria de Princípios e Parâmetros (CHOMSKY, 1981, 1995). O uso do sujeito pleno foi predominante em ambos os sexos, graus de escolaridades e nas quatro localidades.


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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/cl.v20i1.4622

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