PRIAPISMO E DOENÇA FALCIFORME: PREVALÊNCIA, FATORES DE RISCO E COMPLICAÇÕES

Mateus Andrade Alvaia

Resumo


A doença falciforme (DF) é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um grave problema de saúde pública mundial, com grande impacto na morbimortalidade da população afetada (Brasil, 2015). É uma doença genética, predominante entre negros e pardos e sua fisiopatologia está relacionada à ocorrência de vaso-oclusões, principalmente em pequenos vasos, determinante na origem da maioria dos sinais e sintomas da Doença (Felix; Souza; Ribeiro, 2010). No Brasil Estima-se que entre 25 a 50 mil brasileiros convivam com a DF. O estado da Bahia possui a maior incidência da doença, com uma proporção de um para cada 650 nascidos vivos, seguido dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais com um para cada 1300 e 1400 respectivamente (Brasil, 2015).
De acordo com o tipo de alteração presente na hemoglobina, pode-se classificar essa hemoglobinopatia em formas clínicas distintas: forma homozigótica SS, que é a anemia falciforme (HbSS), e as formas heterozigóticas, representadas pelas associações de HbS com outras variantes de hemoglobinas, tais como: HbC e as interações com as talassemias (Felix; Souza; Ribeiro, 2010). Dentre as inúmeras repercussões clínicas agudas e crônicas da DF destaca-se o priapismo e disfunção erétil (DE) que pode acometer a população masculina.
O priapismo é um distúrbio clínico caracterizado pela ereção peniana prolongada na ausência de interesse sexual ou desejo (Burnett et al., 2014). É uma condição rara com incidência geral de 1,5 caso por 100 000 pessoas. No entanto, é uma importante emergência urológica, porque o dano no tecido erétil pode levar à perda de ereções funcionais (Ekeke, O. N., Omunakwe, H. E., & Eke, N., 2015 & Ugwumba et al., 2016). Esta doença afeta todos os grupos etários, no entanto, a incidência é mais alta entre os pacientes com hemoglobinopatias, em que é de até 3,6% em pacientes com idade inferior a 18 anos, aumentando para 42% em pacientes com mais de 18 anos (Ahmed et al. 2017).
A duração dos episódios representa o preditor mais significante para a manutenção adequada da função erétil. Por isso o priapismo isquêmico é condição emergencial e intervenções deveriam ser iniciadas dentro de quatro a seis horas visando detumescência dos corpos cavernosos, diminuição da dor e prevenção da DE (Salonia et al., 2013).
Episódios de priapismo “maiores” muitas vezes deixam sequela devastadora da necrose do tecido erétil e posterior fibrose pela proliferação de fibroblastos. A DE é previsível, uma vez
que ocorre danos irreversíveis no tecido erétil, com taxas documentadas de até 90% para o priapismo com duração superior a 24 horas. No entanto, os relatos de DE também podem ser relacionados a episódios de priapismo isquêmico “menor”, em que a duração dos episódios é de minutos a poucas horas (Anele et al., & Burnett, 2015). Juntamente com a DE o priapismo reverbera na saúde mental com sentimentos de desespero, ansiedade, constrangimento e isolamento, implicando diretamente na insatisfação em relação à vida sexual.
Não existe um tratamento farmacológico que previna diretamente o priapismo, contudo medicamentos anti vaso-oclusivos podem trazer benefícios. A hidroxiureia destaca-se como o único fármaco que, efetivamente, teve impacto na melhora da qualidade de vida dos pacientes com DF, reduzindo o número de crises vaso-oclusivas (Cançado et al., 2009). Além disso, estudos como o de Anele et al. (2014), sugeriu um possível efeito da hidroxiureia na recuperação da função erétil após a resolução do priapismo.
O objetivo desse estudo é avaliar aspectos epidemiológicos do priapismo em pacientes com DF, e o impacto do mesmo na função sexual dos adultos.
O grande número de afrodescendentes no estado da Bahia e a presença de um centro de saúde referência em pessoas com DF na cidade de Feira de Santana incita a necessidade de conhecer o perfil dos falcêmicos, com destaque para os homens. A compreensão destes aspectos possibilitará uma melhor abordagem do tratamento destas condições, permitirá a elaboração de políticas públicas mais realistas e minimizará os agravos associados a tão grave condição.


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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/semic.v0i21.2311

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