FREUD E SARTRE: DA DETERMINAÇÃO PULSIONAL À RESPONSABILIDADE

Luciene Braga Borges

Resumo


Na obra Além do princípio de prazer (1920/2010a), Freud introduz nas teorias psicanalíticas o conceito de pulsão de morte, como presente no processo vital interagindo como uma força em conflito dentro de um quadro psíquico mais amplo, no qual as explicações das ações humanas eram procuradas. Introduzir este conceito era uma tentativa de responder, entre outras, a questão: por que algumas ações ou pensamentos característicos do comportamento humano, pensando este em relação à questão das neuroses traumáticas, por exemplo, não obedecem ao “princípio de prazer”? A observação clínica levou Freud (1930/2010b) a perceber certos comportamentos como: compulsão a repetição do desprazer; sentimento de culpa e necessidade de punição, como demonstrativos deste tipo de análise, decorrendo daí a necessidade de rever suas teorias. Levando em consideração que o “princípio de prazer” era, até então, considerado por Freud (1900/2001) como aquele que rege o aparelho psíquico na sua tendência a um menor grau de excitação possível que tenderia ao prazer e, partindo desta perspectiva, questionamos: o que explicaria a repetição de movimentos dolorosos como consequência de um aumento de excitabilidade e, portanto, a aparente escolha por um quadro de sofrimento? Para Freud parece que essa escolha não é feita de modo plenamente consciente, enquanto para Sartre (1943/2014b) não pode ser imputada a um inconsciente. Sartre (1943/2014b) não ignora que as escolhas da realidade humana frequentemente constituem um mundo de sofrimento, no entanto a responsabilidade por esse tipo de ação contraditória pode ser creditada a realidade humana e não estaria relacionada a elementos pulsionais conforme afirma Freud.
Enquanto para Freud (1900/2001, p. 523), as ações dos homens devem ser analisadas levando-se em consideração os impulsos inconscientes que irrompem na consciência, mesmo que muitas vezes eles sejam neutralizados pelas forças reais da vida, Sartre (1943/2014b) contesta decisões fundamentadas em um “eu” interior, que se sustente na noção de inconsciente e atribui a realidade humana plena liberdade para fazer escolhas responsáveis, indo de encontro a noção de aparelho psíquico regido por pulsões, implícito nas teorias freudianas.


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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/semic.v0i20.3204

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