CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO - DOSSIÊ: Práticas de sociabilidades no Atlântico Sul: memórias e histórias de populações litorâneas e ribeirinhas

2023-12-18

Práticas, hábitos e costumes de africanos na diáspora figuram como um dos principais focos de análises sempre presentes - nas últimas cinco, seis décadas - na história das ciências humanas e sociais.  Na atualidade, os debates sobre as especificidades religiosas, culturais, políticas e simbólicas desses grupos humanos têm assumido novos contornos, o que se nota no Brasil pela ampla acolhida e divulgação de obras que versam sobre os mais variados aspetos da vida desses grupos, como evidenciam pesquisas realizadas nos mais variados campos das ciências sociais e humanas (BECKWITH, 1928; RAMOS, 1940; BASTIDE, 1978; FRAGOSO et al., 2001; SOHIET et al., 2005; GOUVEIA et al., 2004; REIS, 1986, 2008; PARÉS, 2006; GREEN, 2009, 2012; WALKER, 2002; SWEET, 2007; IROBI, 2012; TAYLOR, 2013; THORNTOM, 2004, dentre outros).

Estes autores, de diferentes modos, sinalizam práticas que se reconfiguram na diáspora a partir dos finais do século XV, tendo como alguns de seus aspectos fulcrais a precarização das relações e condições de trabalho, a pulverização das redes sociais tradicionais e afetivas, o recrudescer do individualismo no sentido mais nocivo do termo, bem como a diluição do potencial coletivo de articulação política e de construção de críticas sociais de grupos humanos em circunstâncias de injunções coloniais.

O cenário de precarização das condições de vida desses grupos humanos, que hoje se intensifica em escala global - com o ressurgimento de governos de extrema direita, revigorados, em vários países que, por arrastamento, está robustecendo o racismo sistêmico - apenas confirma este trágico diagnóstico. Todavia, esta análise geral, apesar da sua relevância e perspicácia em vários aspetos, continua num âmbito demasiado amplo de pesquisa. Por exemplo, modelos teóricos eurocentrados ainda servem de referências para para um considerável número de pesquisas tanto na América Latina, quanto nos Estados Unidos ou na Europa.

Neste dossiê, gostaríamos de propor um recorte e um ponto de partida um pouco diferente disso. Nosso propósito aqui é evidenciar as práticas, os costumes de populações ribeirinhas e litorâneas, ou seja, a forma como essas comunidades diasporizadas podem ser estudadas a partir da observação de especificidades locais que reproduzem e/ou contestam enquanto resistem a injunções “imperiais”. Com a expressão práticas de sociabilidades gostaríamos de ressaltar não simplesmente os intercâmbios, forçados/ou não, que possibilitaram a essas comunidades uma reexistência em conjunturas adversas.

Gostaríamos de refletir sobre essas práticas de sociabilidades como uma arena de vivências nas quais os hábitos, os costumes dessas comunidades se reproduzem e/ou reconfiguram. Por exemplo, experiências vivenciadas por grupos humanos marginalizados ou aquelas vivenciadas pelos que ocupavam o topo daquelas sociedades escravistas conformam distintas formas de sociabilidades, abarcando distintas experiências e lugares de fala.

Por fim, importa realçar que este recorte não cogita simplificar o controlo social e as tensões sociais que sempre pautaram as relações entre dominantes e dominados. Pelo contrário, a problematização das práticas de sociabilidades nos faculta prosseguir no entendimento da complexidade de fenômenos como o racismo e de suas antinomias e incongruências contemporâneas, que quase sempre se disfarsa numa pretensa democracia racial, que relega para as margens da sociabilidade grupos herdeiros de experiências escravistas, no Brasil, na América Latina, e na África.

O prazo para submissões é 18/02/2024. Os critérios para submissão podem ser consultados AQUI .