Corpo, resistência e insubmissão na literatura portuguesa dos séculos XX e XXI - v. 14, n.1 - 2024

2023-11-02

On ne peut pas écrire sans la force du corps.

Marguerite Duras

Como observa Chantal Jaquet, “o corpo impõe-se, na sua espessura, como uma realidade íntima e concreta, uma forma viva que se move e comove, ora móvel ou imóvel, sensível e insensível. Levado para todo o lado, torna-se uma presença mediata e imediata entre o eu e os outros. Viver é assumir um corpo e apreender o mundo a partir desse ponto de vista único e inexpugnável.” (Jaquet, 2001: 1) Se, durante séculos, a tradição filosófica reduziu a corporeidade ao apagamento e ao não-ser, esta tornou-se hoje objeto incontornável de reflexão e estudo nas ciências sociais e humanas. Anulando a distinção entre sujeito e objeto, o corpo, simultaneamente familiar e alvo de estranheza, remete para as experiências da intimidade e da exterioridade, ora como simples espetador ora como a(u)tor de múltiplas ações em que revela todo o seu poder e complexidade. Terra incógnita a ser explorada, remete para as mais variadas vivências e experiências, para “técnicas” (Mauss, 1934) definidas espaciotemporalmente, resultando de orientações sociais, da educação ou práticas culturais materializadas por marcas indeléveis. Aberto a múltiplas possibilidades, o corpo-signo reúne assim o visível e o invisível, a superfície e a profundidade, o ser e a aparência, o material e o imaterial, desdobrando-se em múltiplas facetas passíveis das mais diversas formas de  expressão e questionamento, nomeadamente na esfera do literário que aqui nos ocupa.

               A corporeidade surge também associada às noções de totalidade e unidade, reunindo o múltiplo e as partes, orgânicas, políticas ou sociais. A organização da vida coletiva implica assim a existência de um todo constituído, uma ordem, um conjunto de normas, orientações e relações que impactam o indivíduo, pautando-se este por ações de conivência, submissão, subversão ou resistência, entre outras formas de expressão e afirmação. Evocar o corpo político e/ou as políticas do corpo leva-nos a questionar os fundamentos, a constituição dos regimes, os dispositivos de poder e resistência, em que o corpo se inscreve como suporte de várias iniciativas individuais e/ou coletivas.

               Partindo de diversas abordagens disciplinares e considerando as questões de corporalidade, identidade, construções  e interações, efeitos e tensões resultantes de dicotomias tais como centro/periferia, público/privado, norma/margem, submissão/resistência, entre outras, este volume temático visa reunir contribuições que procurem analisar a(s) forma(s) como o corpo individual e/ou coletivo se inscreve entre o real e o ficcional, o poético e o político, o simbólico e o imaginário, nas produções da literatura portuguesa contemporânea.

Eixos propostos :

  1. Poéticas do corpo; corpos poéticos
  2. Políticas do corpo; corpos políticos
  3. Corpo, identidade, género, sexualidade
  4. Corpo, ética e estética

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Submissão dos artigos (com resumos): até 31 de janeiro de 2024 para o endereço: corpoLPC2024@gmail.com

Línguas do artigo: português, francês, espanhol ou inglês

Para as normas de redação, consultar: https://periodicos.uefs.br/index.php/leguaEmeia/about/submissions#authorGuidelines

 Comissão organizadora do volume temático:

Maria Araújo da Silva (Sorbonne Université)

Ana Luísa Vilela (Universidade de Évora)

Matteo Pupillo (Universidade de Évora)