Breviário para reparar as feridas do mundo em narrativas literárias do Brasil, de Camarões, do Marrocos e do Senegal

Autores

  • Humberto Luiz Lima de Oliveira 75999122582

DOI:

https://doi.org/10.13102/lm.v12i2.7695

Resumo

Seja no Iraque, na Síria, na China, ou não importa onde, com diferentes intensidades, pode-se constatar uma crescente ocidentalização do mundo. De fato, sob o signo da globalização, com bens, produtos, serviços e mercadorias oferecidos pelo Mercado, ideias e sentimentos chegam aos espaços mais distantes do planeta (BOURDIEU: 1999). Quando as culturas locais parecem ameaçadas diante desta incontornável tentativa de homogeneização do mundo, com o individualismo exacerbado se tornando uma 'filosofia de vida"  (LIPPMAN:  2009; CHOMSKY:2016), qual seria o papel dos intelectuais que se pensam como porta-vozes de suas sociedades?  (FANON:2006) Este trabalho tem a pretensão de mostrar as soluções para sair do conflito vivido pelas sociedades brasileira, camaronesa, senegalesa e marroquina quando, sob a pressão da “moda” (HELLER: 2010), homens e mulheres são levados a integrar novas maneiras de pensar, viver, amar e trabalhar, perturbando a vida social (ACHEBE,2009;  HAMIDOU KANE: 2001).  Para isso, seguiremos a metodologia da Literatura comparada que nos ensinou a articular discursos os mais diversos sem perder de vista a temática comum a ligar as obras estudadas: Tenda dos Milagres (1969), do brasileiro Jorge Amado, Xala (1973), do senegalês  Sembène Ousmane, Histoire d’ un vieux couple heureux (1993), do marroquino Mohammed Khaïr-Eddine e  a peça teatral Ils ont mangé mon fils (2007), do camaronês Jacques Fame Ndongo, que mostram como estes intelectuais obtiveram êxito em construir personagens que, sem cair nas malhas da etnicidade, conseguem estabelecer um entre-lugar como caminho para se chegar à "boa vida" (ACOSTA, 2016), sem idealizações de um suposto passado harmonioso, e recusando viver sem vínculos de pertença e solidariedade (BUBER:1989;LÖWY:2016). Nestas encruzilhadas culturais, quando vivemos sob o impacto de uma pandemia que ameaça a própria civilização ancorada no Ter e no exacerbado individualismo, de maneira antecipatória,  estas narrativas celebram a justa medida,  e assim propõem uma nova Política, uma nova Ética e uma nova Estética ( BOFF: 2006; GUATTARI: 2001; OLIVEIRA: 2009).

Palavras-chave: Literatura; sociedade; reparação; utopia; cuidado.

 

BREVIARY TO REPAIR THE WOUNDS OF THE WORLD IN LITERARY NARRATIVES OF BRAZIL, CAMEROON, MOROCCO AND SENEGAL



ABSTRACT: Whether in Iraq, Syria, China, or no matter where, with different intensities, one can see a growing Westernization of the world. In fact, under the sign of globalization, with goods, products, services and goods offered by the Market, ideas and feelings reach the most distant spaces of the planet (BOURDIEU: 1999). When local cultures seem threatened in the face of this inescapable attempt at homogenization of the world, with exacerbated individualism becoming a 'philosophy of life' (LIPPMAN: 2009; CHOMSKY:2016), what would be the role of intellectuals who think themselves as spokespersons of their societies? (FANON:2006) This work aims to show the solutions to emerge from the conflict experienced by Brazilian, Cameroonian, Senegalese and Moroccan societies when, under the pressure of fashion (HELLER: 2010), men and women are led to integrate new ways of thinking, living, loving and working, disturbing social life (ACHEBE,2009; HAMIDOU KANE: 2001). To do so, we will follow the methodology of comparative literature that has taught us to articulate the most diverse discourses without losing sight of the common theme to link the works studied: Tenda dos Milagres (1969), by the Brazilian Jorge Amado, Xala (1973), by Senegalese Sembène Ousmane, Histoire d' un vieux couple heureux (1993), by Moroccan Mohammed Khaïr-Eddine and the play Ils ont mangé mon fils (2007), of the Cameroonian Jacques Fame Ndongo, who show how these intellectuals succeeded in constructing characters who, without falling into the meshes of ethnicity, manage to establish a between-place as a way to reach the "good life" (ACOSTA: 2016), without idealizations of a supposed harmonious past, and refusing to live without bonds of belonging and solidarity (BUBER:1989; LÖWY:2016). At these cultural crossroads, when we live under the impact of a pandemic that threatens civilization itself anchored in the possession of things and in the exacerbated individualism, in an anticipatory way, these narratives celebrate the just measure, and thus propose a new Policy, a new Ethics and a new Aesthetic (GUATTARI: 2001 ;BOFF: 2006; OLIVEIRA: 2009).

Key words: Literature; Society; Utopia; Reparation; Care.





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Biografia do Autor

Humberto Luiz Lima de Oliveira, 75999122582

Formação em Filosofia(UCSAL) e Letras com Francês (UEFS), especialista em Estudos Literários (UNEB-UFBA), Mestre em Letras(UFBA), Doutor em Literatura comparada (Université d' Artois,França), pós-doutoramento em Literatura e Crítica Contemporânea (UFBA). Tradutor, contista, romancista, ensaista, criador da revista digital www.revistacadernosdosertao.wordpress, tem livros  e capítulos de livros publicados no Brasil e no exterior. Fundador do NEC- Núcleo de Estudos Canadenses e do CELCFAAM-Centro de Estudos em Literaturas e culturas franco-afro-americanas e organizador de seminários internacionais desde 1999: Seminário Brasil-Canadá de Estudos  Comparados, Seminários da Francofonia e Colóquio Internacional de Estudos comparados. Coordena os Projetos de Pesquisa  Imagens do Outro nos retrados do mundo...(CONSEPE 36/2000) e Assim caminha a humanidade? do Individualismo, do Coletivismo e do Comunitário. Revisitando utopias (CONSEPE 115/2014).

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Publicado

2022-03-02

Como Citar

Lima de Oliveira, H. L. . (2022). Breviário para reparar as feridas do mundo em narrativas literárias do Brasil, de Camarões, do Marrocos e do Senegal. evista Légua eia, 12(2), 6–29. https://doi.org/10.13102/lm.v12i2.7695