HUMANISM AND THE METAPHYSICS OF HUMAN ESSENCE – ON THE PRODUCTION OF MAN BY LABOUR

João Quartim de Moraes

Resumo


São muitas as definições do humanismo porque muitos são os pressupostos teológicos ou filosóficos em que se apoiam e muitas as posições político-ideológicas que procuram justificar. Louis Althusser sintetizou, meio século atrás, os pressupostos dessas doutrinas: há uma essência universal do homem; tal essência é atributo de indivíduos tomados isoladamente, que são seus sujeitos reais. A essência, que em si é um universal, se reproduz em cada homem; todos os homens seriam, portanto plenos detentores da humanidade, ou ainda, racionais. Assim compreendido, o humanismo, filosoficamente, é um discurso idealista que declara, a partir de uma nebulosa intuição de essência, que o homem ou “as pessoas” é ou são isso ou aquilo. Retoma, mesmo quando inspirado de elevados ideais de emancipação, uma das repostas mais comuns à pergunta pela essência do homem: a animalidade é sua matéria, mas sua forma substancial é a razão. Embora ela valha para todas as doutrinas metafísicas sobre a essência humana, Althusser tinha em vista, ao desenvolver sua crítica, as versões marxistas do humanismo, que se apoiam nas obras de juventude, inspiradas na noção de “essência genérica” (Gattungsweisen) do homem elaborada por Feuerbach. Daí sua tese de que as descobertas teórico-científicas de Marx configuraram uma “ruptura epistemológica” com as ideias da juventude. Essa tese suscitou e continua suscitando múltiplas refutações: Althusser foi acusado de empirismo, positivismo, epistemologismo etc. As classificações pejorativas importam menos do que a doutrina “ontológica” do trabalho em que elas se baseiam. Tal como interpretado pelos ontólogos, o princípio de que o homem se autoproduziu pelo trabalho encerra-se num círculo vicioso: o trabalho produz o homem porque ele trabalha de um modo humano. A tautologia é ocultada por um postulado metafísico: o trabalho é a exteriorização da essência ativa do “ser humano genérico”. A autoprodução do homem não é, pois compreendida concretamente como resultado de um processo seletivo de hominização, mas como atualização de uma essência meta-histórica, segundo o modelo do par conceitual aristotélico potência/ato (trabalhando, o hominídeo já era homem em potência). A despeito do estágio elementar dos conhecimentos arqueológicos de seu tempo, ao examinar a categoria trabalho em O Capital, livro I cap. 5, Marx se referiu às “primeiras formas instintivas, animais, de trabalho”, ilustrando-as com a teia da aranha e a colmeia das abelhas. Assinalou ainda que nelas se delineiam formas embrionárias da técnica, notando porém que “o emprego e a criação dos meios de trabalho, embora se encontrem em germe em algumas espécies animais, caracterizam o processo de trabalho especificamente humano”. Evidentemente, não cabia numa crítica da economia política burguesa proceder ao estudo aprofundado das modalidades pré e extra humanas do trabalho. Mas as concisas considerações que ele consagra ao tema não deixam a menor dúvida: “pressupomos o trabalho numa forma em que ele pertence exclusivamente ao homem”, isto é, esta forma constitui o ponto de partida do Capital, mas ela é o resultado de um longo processo de hominização e não a expressão metahistórica de uma essência genérica. À luz dessas considerações, a crítica ontológica da “ruptura epistemológica” recai, em irônica dialética, numa velha e radical ruptura metafísica: entre natureza e cultura, ou em linguagem explicitamente teológica, entre corpo e alma. Pode-se criticar o efeito provocador da expressão anti humanismo teórico. Exatamente porque é muito mais simpático aderir à ontologia trabalhista do ser social do que à crítica dos pressupostos meramente ideológicos e no mais das vezes retóricos do discurso humanista, Althusser teria sido mais bem compreendido se em vez de molestar a sensibilidade cultural dos intelectuais de esquerda, ele tivesse se cingido a criticar a pretensão de dizer o que o homem é, sem passar pela análise das condições concretas da evolução do homo sapiens. Submetido à crítica materialista, o ideal de uma humanidade liberada da opressão, da exploração de classes e da miséria da existência, meta irrenunciável das lutas revolucionárias inspiradas no marxismo vivo, deixa de ser ontologicamente garantida pela “essência genérica do ser social”. Mas abandonar uma garantia quimérica é avançar rumo à verdade efetiva das coisas. A longa história do homo sapiens não é a atualização de uma essência pré-fixada. Ela corre por um rio caudaloso cujo leito não foi traçado de antemão. A lógica objetiva que Marx discerniu na trama densa das relações sociais não obedece a nenhuma teleologia imanente. A instauração de uma forma superior de organização social, na qual os meios de produção de riquezas deverão se tornar patrimônio comum (=comunista) da humanidade, é o mais elevado programa político de emancipação da humanidade, mas exatamente por ser um programa, depende da virtù e da fortuna dos que se batem para concretizá-lo. 

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DOI: http://dx.doi.org/10.13102/ideac.v1i30.1321

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eISSN: 2359-6384