Em(conto): liminaridade e devaneio
DOI:
https://doi.org/10.13102/lm.v15i1.9998Resumo
O conceito de liminaridade reúne dois pontos essenciais para o campo da narração oral: a passagem e a suspensão. O objetivo deste artigo é o de estabelecer uma relação entre o fenômeno da narração oral e o conceito de liminaridade, conforme desenvolvido pelo antropólogo Victor Turner (1974, 2012). Recorre-se para isso, à ideia de devaneio (Bachelard, 2001) como participante do fenômeno do encontro à volta das histórias (ativado pelo contador de histórias) e na figura de Sherazade, como metáfora estrutural da abertura ao infinito nas histórias e da suspensão temporária da morte. Propõe-se como necessária uma situação de relativa proteção (mesmo que mais desejada do que concreta) para a efetivação das trocas envolvidas neste encontro coletivo. A situação de estar ao abrigo da Skene, permitiria que o estado de liminaridade pudesse potencialmente emergir, permitindo a entrega ao devaneio intrínseco à escuta/participação da/na narrativa. Sem esta suspensão liminar, protegida pelo corpo coletivo reunido, o devaneio se fragiliza e perde o potencial atmosférico que o encontro pode proporcionar. Apoiadas em Leda Maria Martins, entendemos o corpo em performance como local de inscrição de conhecimento (Martins, 2003) e propomos então que a aventura de se posicionar como corpo-passagem, no ato de contar, possibilita abertura às conexões com o outro, com o entorno e com a produção atmosférica que se desenha ao longo do evento.
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