Sobre a Revista

Nós, da Incubadora de Iniciativas da Economia Popular e Solidária da Universidade Estadual de Feira de Santana (IEPS-UEFS), sonhamos em fazer da Revista Retalhos uma realidade há vários anos. Sempre envolvidos(as) com as muitas demandas de pesquisa e extensão universitária, feitas com muito amor e vontade por estudantes, técnicos(as) e professores(as), fomos empurrando o sonho no ritmo de nossas muitas tarefas. Desde o início, no entanto, houve um consenso imediato em torno do seu nome de batismo. Agora que o “parto” está a acontecer, ele merece explicação.

O que chamamos de Economia Popular e Solidária é uma interseção de elementos que não se apresentam íntegros, de perguntas ainda sem respostas, expectativas que por vezes se realizam, por vezes hibernam na espera de um tempo que ainda não chegou. Solidariedade, construção coletiva, participação efetiva, igualdade, uma economia revolucionária, do povo, que prioriza a vida sobre o valor, e onde a vida dos seres humanos possa conectar de forma horizontal com outras formas de vida e de existência.

Esses “retalhos” em experiência, vão sendo produzidos por resistências e lutas, que de regra se impõe apesar de um movimento contrário muito poderoso. Confrontar as formas capitalistas de reproduzir a existência é penoso. E, apesar dos “retalhos” parecerem frágeis, provisórios – sempre ameaçados pelas lógicas do valor e do mercado – eles vão acontecendo, aproveitando brechas, fissuras (Holloway, 2013), aos poucos alargando espaços e se somando. Este movimento nos lembra uma colcha de retalhos, colorida, abigarrada (Zavaleta, 2009), complexa em seu modo de combinar pedaços de tecido de tramas, texturas e tamanhos diferentes, mas que aponta para um resultado sempre muito bonito e alegre.

A Revista Retalhos espelha-se nessa metáfora. Deseja ser um espaço de encontro para o conhecimento produzido a partir da realidade pujante do trabalho coletivo popular autogestionário. Daquele que acontece nos esforços em torno do produzir, trocar, circular e articular, em espaços os mais diversos: comunidades, famílias, associações, cooperativas populares, vizinhos(as), nas ruas. Que também está em germe no trabalho de indivíduos que se aventuram à sobreviver à margem do “mercado de trabalho”, resistindo historicamente a um processo de longa duração, característico, sobretudo, das vítimas do processo colonizatório europeu e da escravidão dos povos do sul global.  Muitas vezes aparentemente sozinhos, aqueles(as) que “se viram” entre as margens e o centro, produzindo a partir das favelas, roças, periferias das grandes cidades, mesmo imersos em dores e profundas contradições, nunca estão de fato sós: lá estão redes de apoio coletivo, que se unem entre o produzir, circular e consumir, e que apontam para lógicas que disputam o modo hegemônico que o de reproduzir a existência sob o capitalismo. Lembramos, por exemplo, das relações de afeto e solidariedade que muitas vezes unem o “freguês” ao feirante, fazendo as feiras livres resistirem, a despeito de acossadas pelos supermercados e grandes redes atacadistas.

Os retalhos que esta Revista deseja costurar são nomeados pelo conhecimento acadêmico de várias formas. A IEPS-UEFS optou desde o seu início por Economia Popular e Solidária, mas as categorias acadêmicas certamente não dão conta da múltipla realidade vivida - muitas vezes, aliás, são por ela ignoradas, sem cerimônia. Para o que tem sido predominantemente chamado de Economia Solidária (sobretudo no Brasil e na América Latina), o companheiro da IEPS-UEFS, Hudson Silva dos Santos, catalogou ao menos 14 outras expressões: “[...] Economia Popular (e) Solidária, Empreendedorismo Social, Economia da Dádiva, Socialismo Autogestionário, Economia Criativa, Economia Plural, Autogestão, Economia do Trabalho, Terceiro Setor, Cooperativismo Popular, Socioeconomia (Solidária), Economia dos Setores Populares, Economia de Comunhão etc.” (2017, p. 28).

Em torno do ímpeto nomeador das universidades e do Estado, e das muitas divergências existentes, no entanto, giram experiências ainda mais múltiplas. Em suas muitas e contraditórias texturas, escapam aos olhos educados pelas ciências, exigindo outras sensibilidades e formas de conhecer para serem desvendadas. Ainda no âmbito do conhecimento científico, convocam o encontro da pesquisa e a extensão, expressado na forma das metodologias do tipo participativo. Para além da Academia, essa “economia das diferentes dimensões da vida“, que vai além do “mercado”, para ser também social, política, cultural, identitária, educativa, ecológica (Lima, 2017), pede que sejam ultrapassados os muros das universidades, para abarcar outras formas de “contação” e expressão da realidade, que bebem, sobretudo, no conhecimento popular e na arte.

A vontade de aproximar e lançar luzes sobre a importância do chamado “senso comum” também explica, aliás, o nome de batismo da nossa Revista. Em reflexões sobre a construção do conhecimento do senso comum, Roberto Antônio Penêdo do Amaral propõe:

[...] fazendo uma analogia com a construção do conhecimento do senso comum, eu diria que a “colcha de retalhos” traduz-se no todo desse saber “ordinário”, cujas partes (os retalhos multicoloridos, multiformes, de várias estampas e texturas) estão embebidas de histórias, existências, encontros e visões de mundo, costuradas manualmente, com paciência, resignação, revolta, dor, compreensão, fé, carinho, raiva e, acima de tudo, com arte. Essa construção artesanal me permite chamar esse saber “ordinário” de saber extraordinário.

Essa “colcha de retalhos” é com que os transeuntes do senso comum podem contar, é o seu abrigo metafórico e intuitivo. Nesse sentido, o conhecimento que resulta nessa “colcha de retalhos” é extremamente significativo porque é prenhe de vitalidade, já que brotou de uma relação direta do ser humano com o mundo e com os seus pares (2002, p. 77).

A Revista Retalhos quer ser um espaço em que se leva em conta tudo isso. E quer também ser um retalho na colcha em construção, por muitas mãos, e por corações que acreditam na capacidade humana de transformação, em luta por um mundo em que todos(as) possam experimentar “uma existência que não se rendeu ao sentido utilitário da vida” (Krenak, 2020, n. p.), irmanados pelo propósito de concretizar a máxima “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades” (Marx, 2012, p. 33).

Referências 

AMARAL, José Antônio Penêdo do. A “Colcha de Retalhos”: uma metáfora do conhecimento. 75-88 Inter-Ação: Rev. Fac. Educ. UFG, n. 27, v. 2, pp. 75-88, jul./dez. 2002

HOLLOWAY, John. Fissurar o Capitalismo. São Paulo: Publisher Brasil, 2013.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. E-book.

LIMA, José Raimundo de Oliveira. Economia Popular e Solidária e Desenvolvimento Local: uma relação estratégica. Feira de Santana-BA, Novas Edições Acadêmicas, 2017.

MARX, Karl. Crítica do Programa de Gotha. São Paulo: Boitempo, 2012.

PITA, Flávia Almeida. “Com que roupa eu vou pro samba que você (não) me convidou?”: entre desventuras da personificação jurídica e insurgências das lutas pelo trabalho associado popular. 2020. Tese (Doutorado em Ciências Jurídicas e Sociais) – Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2020.

SANTOS, Hudson Silva dos. O trabalho associado em retalhos: um estudo da (des) proteção jurídica do trabalho. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais e Jurídicas) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2017.

ZAVALETA, René. La autodeterminación de las masas. Bogotá: Siglo del Hombre Editores; Clacso, 2009.

 

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