Dossiê intencionalidade e corporalidade
Alguns problemas para os quais as pesquisas filosóficas atuais estão voltadas permitem e solicitam uma metodologia de investigação que empregue a noção de intencionalidade, não de uma maneira meramente acessória, mas em condições bastante centrais. O uso filosófico e metodológico da intencionalidade, que se afasta do emprego corrente do senso comum, restrito aos fins deliberados das ações e atitudes, remete à recuperação dessa noção por parte de Franz Brentano, no séc. XIX, da forma como era empregada no contexto da filosofia medieval, notadamente por Avicena, Duns Scotus e Tomás de Aquino.
A noção de intencionalidade diz respeito à propriedade de ao menos uma parte dos estados mentais conscientes se direcionarem a algo. Ao mesmo tempo em que trata a uma característica relacional de estados mentais, vale notar que eles se direcionam a algo que pode não ter uma existência, de modo que nem sempre a intencionalidade é uma relação no sentido próprio do termo, podendo ser uma quase-relação na medida em que há um direcionamento mental, mesmo que seja a algo inexistente. Assim, pode-se dizer, a intencionalidade designa principalmente uma propriedade geral da mente ou da consciência – conforme se siga uma ou outra corrente filosófica – de estar direcionada a algo, de se relacionar com algo a título de polo determinante do escopo de um ato seu, de uma visada sua.
Edmund Husserl, que foi aluno de Brentano, deu um peso maior à intencionalidade, fazendo da “análise intencional” um procedimento que define a própria fenomenologia, de modo que os problemas epistemológicos, da linguagem, lógicos e ontológicos são todos abordados pelo filósofo a partir do recurso da intencionalidade. A história da fenomenologia, em diversos epígonos, demonstra a fecundidade da intencionalidade no desenvolvimento de vários problemas, ainda trabalhados na atualidade.
Já em meados do século XX, a partir do trabalho de Chisholm, a noção ganha um importante papel também na tradição analítica, em especial na área de filosofia da mente. Muitos estados mentais, como crenças ou desejos, ou como desejo, amor, aversão, direcionam-se a coisas, propriedades ou relações que não são elas mesmas mentais. Porém, frequentemente os estados mentais são direcionados a outros estados mentais, o que se torna notório nas relações sociais e na constituição da linguagem. É preciso fazer atribuição intencional de estados mentais para que a comunicação seja possível.
Por designar, portanto, a relação mais multiforme e abrangente entre a experiência e as unidades de significação que formam nossos enunciados, o termo intencionalidade se tornou um operador indispensável no debate filosófico atual. Sua utilidade se faz notar em diversos empregos, além do filosófico, como a psicologia, a sociologia, a semiótica etc. Para esta edição da revista Ideação, espera-se compor um dossiê temático focado na intencionalidade, mas não de forma geral, e sim posto em articulação com as formas corporificadas de interação. Com isso, se tem em mente um debate em que diversas correntes filosóficas podem dar sua contribuição nas questões ligadas ao tema da corporalidade na interação, explorado a partir das possibilidades oferecidas à análise pela noção de intencionalidade.
As formas corporificadas de interação coloca-nos diante de um leque de problemas, ligados ao solipsismo, à validade das asserções em primeira pessoa, à intersubjetividade, às possibilidades e aos limites da comunicação e ao abandono definitivo de uma interação destituída de elemento corpóreo, ou seja, à compreensão do mental a partir das relações sociais, para exemplificar alguns.
A partir das propostas que chegarem, pretendemos avançar nesse debate com um número da revista que seja pertinente para se pensar a mente intencional a partir das formas corporificadas de interação social. Assim, esperamos contar com artigos que possam contribuir com esses temas a partir de perspectivas diversas, tanto com aprofundamento em cada um dos conceitos chave isoladamente, mas de forma que possa contribuir para uma compreensão mais geral da questão, quanto com o debate direto sobre a articulação entre as noções de intencionalidade e das interações corporificadas.