O NATURALISMO E A CRÍTICA À CAUSALIDADE EM DAVID HUME
DOI:
https://doi.org/10.13102/semic.v0i20.3184Abstract
A história da filosofia assimilou a obra de David Hume ao empirismo, fazendo da crítica à causalidade um dos principais signos da sua radicalidade e, por vezes, do seu ceticismo. A crítica à causalidade tem sua primeira, mas não menos sofisticada, formulação no Tratado da Natureza Humana. Assim, ao reservar-lhe a notoriedade pela formulação da crítica, a história da filosofia sempre fizera questão de acentuar o aparente contraste entre, de um lado, a perturbadora denúncia segundo a qual não haveria relação necessária entre eventos empíricos e, de outro, a insatisfatória solução dada ao problema. Seja como for, o cerne da crítica à causalidade parece ser o diagnóstico segundo o qual as relações entre os eventos empíricos não poderiam senão ser exteriores aos próprios fenômenos, o que conduz a obra a uma funda reflexão sobre a unidade da experiência e da razão. Uma das mais importantes consequências da atribuição do epíteto de exterior às relações entre os fenômenos empíricos é situar tais relações como resultado da elaboração de um sujeito. Nesse contexto, a principal questão diz respeito ao estatuto da necessidade aplicada a um campo que não admite relações internas, ao contrário do que seria característico das matemáticas. Se por um lado a formulação do problema da causalidade consiste em fazer ver que as relações entre os fenômenos são exteriores e que, por isso mesmo, não há relação necessária entre eles, por outro, a solução consistirá na afirmação de que, embora sejam exteriores, as relações são necessárias. Agora, trata-se de afirmar um tipo de necessidade diferente daquele que é afirmado pelo caráter interno das relações. No entanto, ao que nos parece, tão importante quanto a afirmação do caráter exterior das relações é a concepção de natureza humana que ampara a solução dos problemas envolvidos na crítica à causalidade. Em sendo assim, se a formulação do problema afigura-se como tipicamente cético, a sua solução ganha ares de um naturalismo que, pelo menos à primeira vista, não parece conciliar-se com o espírito da formulação cética, mesmo porque é o próprio Hume que compreenderá ser tão cético o problema quanto a sua solução. A ênfase no contraste entre a formulação cética do problema e o quanto a solução tem de naturalista, tende a cindir a obra de Hume em dois gestos desiguais, recusando-lhe sua unidade. No entanto, razões internas à obra parecem indicar que ambos os momentos são legítimos e complementares. E não há melhor maneira de fazer ver que se trata de momentos complementares do que reconstituir as razões internas à obra, o que, nesse caso, significa recuperar as exigências conceituais pelas quais Hume retira e faz retornar, de uma maneira bem peculiar, a necessidade ao domínio do empírico e interrogar-se sobre o lugar do naturalismo na obra humeana. À medida que envolve o tema da necessidade e o da unidade da experiência, a pesquisa dialoga com o projeto “O Antipsicologismo e a Certeza em Wittgenstein”, pois se aqui cumpre avaliar a perspectiva humeana segundo a qual a experiência delimita o campo do significativo a partir de uma noção de necessidade que resulta da crítica à razão, no projeto trata-se de examinar a relação
entre lógica e empiria a partir de uma crítica ao psicologismo cujo principal componente consiste em delimitar o campo do significativo a partir das práticas.