A “maçã-do-boi” (bezoário): etnomedicina, história e ciência
DOI:
https://doi.org/10.13102/scb8236Resumo
Através de atividades de ensino de Ciências em escolas municipais de Olinda (Estado de Pernambuco, Brasil), foi constatado, entre os alunos, uma série de concepções alternativas associadas com práticas de medicina popular, através do uso de plantas e animais com fins terapêuticos. Entre as mais interessantes, destacou-se o uso da “maçã-do-boi” ou bezoário, que é conhecido e usado como remédio por membros da comunidade de origem rural. Através de entrevistas com essas pessoas, vários usos medicinais da “maçã-do-boi” foram registrados, entre os quais se destacam os tratamentos da asma e da impotência sexual masculina, bem como um corpus de etnomedicina relacionado ao seu uso. Por outro lado, realizou-se um estudo do ponto de vista médico-veterinário, que identificou os bezoários como concreções de efeito patológico na digestão dos ruminantes. Através de uma revisão bibliográfica em fontes históricas, a partir da medicina árabe medieval, estendendo-se pela Península Ibérica até os colonos portugueses no Nordeste brasileiro, durante o século XVI, a antiguidade do uso dos bezoários foi constatada no tratamento de várias enfermidades humanas, entre as quais se destacam o seu uso como antídoto contra envenenamentos e no tratamento da impotência sexual masculina. Concluiu-se que a existência e o uso dos bezoários até os dias atuais revelam o poder de resistência e reprodução cultural do conhecimento tradicional, mesmo quando submetido a pressões do ambiente urbano atual.
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