Literatura negra-africana: um conceito de corpo e ancestralidade
Mots-clés :
Literatura negra., Literatura negra-africana., Cosmovisão africana., Afrocentricidade., Corporeidade.Résumé
As terminologias que conceituam a literatura negra, ou seja, aquelas que abordam a temática negra e são escritas por pessoas negras, no Brasil, variam dentre muitas questões. A principal delas se dá na variação dos termos “afro” e “negro” em seus prefixos, justificando-se a partir da identidade da pessoa negra, segundo Cuti e seu termo “literatura negro-brasileira”; e da herança africana no termo “literatura afro-brasileira”, segundo Eduardo de Assis Duarte. Questões sobre a afetividade e o encantamento também fazem parte na distinção dessa nomenclatura ao demarcar a centralidade nas abordagens que devem predominar na narrativa, como é o caso da literatura negroafetiva de Sônia Rosa; a literatura negro-brasileira do encantamento de Kiussam de Oliveira; e a afroafetiva de Marcos Cajé. A marcação geográfica de inclusão ou exclusão do termo “brasileiro” também é pauta para discussão na conceituação deste termo, tendo em vista a produção brasileira e suas particularidades históricas e sociais que constituem tal literatura. Pensando no impacto que as nomenclaturas carregam no ambiente acadêmico, sobretudo no espaço escolar, o presente artigo visa trazer um novo olhar ao adotar e defender a terminologia negra-africana na caracterização das literaturas produzidas por autores e autoras negros/as no Brasil, a partir do diálogo com os princípios da afrocentricidade de Molefi Kete Asante, a noção identitária de Cuti agregada à cosmovisão africana de corpo na conceituação da literatura negra. Entendendo que nenhum conceito é suficiente para suprir a complexidade de produções literárias negras presentes no Brasil, busca-se ampliar as compreensões existentes, principalmente com referência aos termos de Duarte, Cuti e Sônia Rosa, propondo reflexões concernentes à forma como África configura o corpo negro, tanto como legado da herança africana na Literatura oral, como um corpo não dicotomizado em que lhe é intrínseco o afeto, ciência e conhecimento. Dessa forma, pensar em uma literatura negra-africana é unir: “negra”, a partir dos princípios de corporeidade e a noção transversal de corpo da cosmovisão africana; e “africana”, a fim de marcar a agência psicológica originária do conhecimento, segundo os princípios da afrocentricidade de Asante, para caracterizar as produções de literatura negra que correspondem à representação do corpo negro humanizado, intelectual, afetivo, evidenciando as singularidades que diferenciam a corporeidade negra a partir da diáspora e da consciência racial, as relações com o meio-ambiente, política e cultura, considerando visão de mundo e localização psicológica em África.
Téléchargements
Métriques
Références
ASANTE, M.K. Afrocentricidade: Notas sobre uma posição disciplinar. In: NASCIMENTO, E. L (org.) Afrocentricidade: Uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009. p. 93-110.
COELHO, N. N. Literatura Infantil: Teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
CORDEIRO, M. B. S. Políticas Públicas de Fomento à Leitura no Brasil: uma análise (1930-2014). Educação & Realidade, v. 43, n. 4, p. 1477-1497, 2018.
CUTI, L. S. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.
DUARTE, E. A. Literatura afro-brasileira: um conceito em construção. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. n. 31, p.11-23, jan.-jun, 2008.
DUARTE, E. A. Literatura Afro-Brasileira: Elementos para uma conceituação. Acervo. v. 22, n. 2, p. 77-90, jul.-dez., 2009.
IANNI, O. Literatura e consciência. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. n.28, p. 91-99, 1988.
LAJOLO, M; ZILBERMAN, R. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1999.
LAJOLO, M. O texto não é pretexto. In: ZILBERMAN, R. (org.) Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. São Paulo: Mercado Aberto, 1984. p. 51-62.
MACHADO, A. F. Filosofia Africana Contemporânea desde os saberes ancestrais femininos: novas travessias/novos horizontes. Ítaca, n. 36, p. 248-280, 2020.
MBEMBE, A. Crítica da Razão Negra. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
MIRANDA, E. O. Experiências do corpo-território: possibilidades afro-brasileiras para a Geografia Cultural. Élisée-Revista de Geografia da UEG, v. 6, n. 2, p. 116-128, 2017.
NOGUERA, R; ALVES, L. P. Infâncias Diante do Racismo: teses para um bom combate. Educação & realidade, v. 44, n. 2, p. e88362, 2019.
PETIT, S. H. Pretagogia: Pertencimento, Corpo-Dança Afroancestral e Tradição Oral Contribuições do Legado Africano para a Implementação da Lei n2 10.639/03. Fortaleza: EdUECE, 2015.
ROSA, S. Literatura negro afetiva para crianças e jovens. Revista África e Africanidades, Ano XIV, Ed. 39, p. 6-22. Ago-Out de 2021.
SANTOS, B. L; GONÇALVES, L. S. M. A presença de autores negros no PNLD Literário: de que lugar estamos falando?. Tabuleiro de Letras, v. 17, n. 1, p. 326-340, 2023.
Téléchargements
Publiée
Comment citer
Numéro
Rubrique
Licence
© A Cor das Letras 2025

Ce travail est disponible sous licence Creative Commons Attribution - Pas d'Utilisation Commerciale - Pas de Modification 4.0 International.
Copyright (c) 2021 Revista A Cor das Letras

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.

Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.

