Caliban no divã: a Psicologia da colonização de Mannoni e a resposta decolonial de Frantz Fanon

Auteurs

  • Marcele Aires Franceschini Universidade Estadual de Maringá (UEM)
  • Marcos Peres Gomes Filho Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Mots-clés :

Caliban, Mannoni, Fanon, Epistemologias decoloniais

Résumé

O presente artigo analisa o personagem Caliban, de Shakespeare, presente em A Tempestade (1611), por meio de duas visões: a colonizadora do francês Mannoni (1990) e a epistemologia contracolonizadora do martinicano Fanon (2008). Inicialmente, aborda o personagem-conceito shakespeariano para além da visão eurocêntrica, retomada e revista pelo escritor cubano Roberto Retamar em seu célebre ensaio escrito em 1971, que repocisiona Caliban como aquele que rompe com seus grilhões coloniais. Tal e qual Retamar, Frantz Fanon, em Pele negra, máscaras brancas (1952), surge como voz a criticar as ideologias colonizadoras de Octave Mannoni em Psicologia da colonização (1950) – mais tarde também publicado como Próspero e Caliban (1956). À luz das correntes decoloniais, Fanon rechaça o “Complexo de Próspero” assertido por Mannoni, relendo e restabelecendo parâmetros contrários ao Complexo de Inferioridade proposto pelo autor francês, que entende o colonizador como superior, o “civilizado” frente ao colonizado. Fazendo coro a Fanon, Bhabha (1998) surge aqui a apregoar o hibridismo cultural nos estudos sobre a alteridade entre os sujeitos e seus lugares no mundo.

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Bibliographies de l'auteur

Marcele Aires Franceschini, Universidade Estadual de Maringá (UEM)

Pós-Doutoranda em Comunicação Social: Universidade Federal do Paraná (UFPR, Curitiba, Paraná), Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Professora do Programa de Pós-Graduação em Letras (PLE) da Universidade Estadual de Maringá. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7060-9629.

Marcos Peres Gomes Filho, Universidade Estadual de Maringá (UEM)

This article analyses Shakespeare’s character Caliban, present in The Tempest (1611), through two visions: the colonizing one developed by the French author Mannoni (1990) and the counter-colonizing epistemology by the Martinican writer Fanon (2008). Initially, it approaches the Shakespearean concept-character beyond the Eurocentric vision, taken up and revised by the Cuban writer Roberto Retamar in his famous essay written in 1971, which repossesses Caliban as the one who breaks away from his colonial shackles. Like Retamar, Frantz Fanon, in Black Skin, White Masks (1952), emerged as a voice criticizing the colonizing thinking of Octave Mannoni in Psychology of Colonization (1950) – later also published as Prospero and Caliban (1956). In the light of decolonial currents, Fanon rejects the “Prospero Complex” asserted by Mannoni, re-reading and re-establishing parameters contrary to the Inferiority Complex proposed by the French author, who understands the colonizer as superior, the “civilized” in relation to the colonized. Corroborating Fanon, Bhabha (1998) appears here to advocate cultural hybridity in studies on the alterity between subjects and their places in the world.

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out. 2024.

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Publiée

2025-12-22

Comment citer

Franceschini, M. A., & Gomes Filho, M. P. (2025). Caliban no divã: a Psicologia da colonização de Mannoni e a resposta decolonial de Frantz Fanon. A Cor Das Letras, 26(Especial), 151–167. Consulté à l’adresse https://periodicos.uefs.br/index.php/acordasletras/article/view/11975

Numéro

Rubrique

Dossiê temático: Literatura e Epistemologias dissidentes