O esquema morfológico latino [[Xi]-arium]N e os seus desdobramentos em línguas românicas
uma análise cognitivo-funcional orientada pela Morfologia Construcional e pelos Mapas Semânticos
DOI :
https://doi.org/10.13102/cl.v26iEspecial.12437Mots-clés :
Construções morfológicas, Polissemia, Derivação sufixal, Comparação interlinguística, Línguas românicasRésumé
Este artigo analisa a construção morfológica [[X]-arium]N, considerando a sua origem na língua latina e o seu desenvolvimento em sete línguas românicas, a saber: romeno, italiano, francês, catalão, espanhol, galego e português. Intenta-se avaliar se há aspectos do comportamento semântico da construção que possam ser considerados relevantes para referendar alguma das propostas de classificação das línguas românicas em ocidentais e orientais, tal como fizeram Maurer Jr. (1951) e Wartburg (1952), e de enquadramento do catalão como língua galo-românica ou ibero-românica, como discutiram Meyer-Lübke (1925), Menéndez Pidal (1950 [1926]) e Meier (1973 [1948]). Os dados para a análise são oriundos de dicionários monolíngues, bilíngues ou trilíngues dessas línguas. As palavras coletadas foram inspecionadas quanto à sua morfologia e à sua etimologia, a fim de descartar palavras não analisáveis como relacionadas aos esquemas morfológicos selecionados. Como aportes teóricos para a análise dos dados coletados, foram escolhidos dois modelos cognitivo-funcionais: a Morfologia Construcional (Booij, 2010, 2014, 2017, 2019; Gonçalves, 2016, 2021; Simões Neto, 2017a; 2017b, 2018; 2021; Soledade, 2013, 2018, 2019; Lopes, 2021) e os Mapas Semânticos (Haspelmath, 2003; Georgakopoulos; Polis, 2018; Sánchez, 2020). Por meio da Morfologia Construcional, analisou-se o fenômeno da fragmentação semântica na construção morfológica, que está relacionado ao seu comportamento polissêmico, e propôs-se uma estrutura hierárquica com esquemas e subesquemas, como é típico nas análises orientadas por esse modelo. Uma vez identificados os esquemas e subesquemas na Morfologia Construcional, as categorias semânticas propostas foram interpretadas a partir dos Mapas Semânticos, um modelo de análise tipológica que tem servido eficientemente a trabalhos de natureza comparativa de forma geral, mesmo quando não analisa línguas tipologicamente diversas e não almeja identificar universais linguísticos, nem propor classificações baseadas em tipologia, como é o caso deste trabalho. A análise dos dados revelou três importantes constatações: (a) há uma rede morfossemântica comum ao latim e a todas as línguas analisadas, e ela inclui significados como agente profissional, agente habitual, adjetivo/qualificador, locativo, objeto recipiente e coletivo; (b) os significados de agente vegetal, objeto de uso pessoal e excesso são improdutivos ou menos produtivos em línguas como o italiano e o romeno; (c) os significados de anomalia, gentílico e atitudinal são mais produtivos nas línguas ibero-românicas. Essas constatações sugerem que, com base no fenômeno em tela, o italiano estaria mais próximo do romeno, sendo uma língua românica oriental, como propôs Wartburg (1952 [1950), e o catalão se enquadraria como uma língua ibero-românica, como defenderam Menéndez Pidal (1950 [1926]) e Meier (1973 [1948]).
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