Estudo filológico-lexical de um ofício do governador da capitania do Ceará sob a perspectiva da análise do discurso crítica
DOI :
https://doi.org/10.13102/cl.v26i1.11738Mots-clés :
Filologia, Léxico, Análise do Discurso Crítica, Dominação, PoderRésumé
Este artigo objetiva realizar um estudo lexical de um ofício exarado pelo governador da Capitania do Ceará, Bernardo Manuel de Vasconcelos, no ano de 1800, a partir do método filológico e da perspectiva da Análise do Discurso Crítica. O documento encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino – AHU, disponível em ambiente virtual para qualquer pesquisador. O referido ofício é direcionado ao secretário de estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, e relata a causa da deserção dos “índios” das vilas do Ceará, onde se achavam aldeados. A partir do relato da autoridade, elaboramos o seguinte questionamento: de que modo os elementos lexicais materializam o discurso colonizador de poder e de dominação contra os nativos no referido texto? O trajeto teórico-metodológico empreendido para fundamentar nosso artigo estruturou-se nas interfaces entre Filologia (Spina, 1977; Banza, 2017; Ximenes, 2020; Gumbrecht, 2021; Warren, 2023), os estudos do léxico (Biderman, 1996; Abbade, 2012; Aragão, 2016) e os pressupostos da Análise do Discurso Crítica (van Dijk, 2013; Wodak, 2003 e 2016). Os achados na presente investigação direcionam-nos para o entendimento de alguns aspectos que respondem a nossa indagação: (i) o léxico usado pelo scriptor contribui para uma caracterização negativa dos povos nativos, sugerindo inferioridade em relação aos costumes europeus; (ii) considerando o contexto sócio-histórico da colonização, o scriptor, discursivamente, descaracteriza as práticas dos povos nativos e, ao mesmo tempo, justifica a dominação e, consequentemente, a necessidade de tutelar os autóctones sob seu controle. Esperamos contribuir com análises críticas no âmbito dos estudos filológicos, em diálogo com os estudos lexicais e discursivos de textos históricos, sobretudo daqueles que se referem aos povos nativos do Brasil cujos discursos das instituições de poder perduram ao longo do tempo e ainda ressoam na atualidade.
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