Atravessando o peculiar terreno gastronômico da morte: iguarias do sexo na poética agonizante de Roberto Bolaño
Mots-clés :
Pornográfico, Fantástico, Psicanálise, ErotismoRésumé
Nos dédalos fantasísticos da literatura, considerando as singularidades melífluas do discurso erótico-pornográfico, a palavra é dominada pelo signo do excesso, uma sinfonia pulsante que privilegia os domínios auspiciosos da carne que se deixa afetar, inquisitorialmente, pelas idiossincrasias da subjetividade. Por essa tessitura particular, articulando os operadores licensiosos da literatura obscena com os algoritmos nebulosos do fantástico, destaca-se a obra Putas assassinas (2001), produção de um dos maiores escritores cubanos do contemporâneo, Roberto Bolaño (2001), exímio renovador do insólito ficcional. No conto O retorno, peça que compõe a obra em tela, vislumbra-se um engenhoso esgarçamento dos discursos já referidos. Na narrativa, inicialmente, testemunhamos a sobrevida de um narrador fantasma que, resignadamente, acompanha os descompassos de seu corpo extraviado, rumo a uma experiência necrofílica, em que o cadáver se submete a um copioso ritual de abusos amorosos, arqueado por Villeneuve, um distinto estilista francês que, por acaso, nutre um aguçado sentimento por amantes sem vida. Assim, no desfiar das ações abusivas do violador, decorrer-se-á o suposto encontro do algoz com o fantasma de seu desejo. Este converte-se numa voz (interna ou externa?) que segue o criminoso, confundindo o leitor, que, aqui, submete-se, totalmente à dúvida. Ademais, subjacências da trama, o corpo é revivido pelo fetichismo impetuoso do personagem, núcleo que rege a fantasia do necrófilo, e que, por sua vez, produz a ambivalência, característica do discurso fantástico, emblema da incerteza que acaba por encerrar a narrativa na (não) existência desse suposto fantasma. Desse modo, com o intuito de investigar as antinomias que coadunam o fantástico à imaginação erótica/pornográfica, considerando tanto as teorias literárias quanto as teorias psicanalíticas, debruçar-nos-emos sobre o universo bolaniano, observando as peculiaridades presentes no conto supracitado, que acabam por enriquecer e produzir os efeitos maledicentes do obsceno.
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Références
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