“AO NORTE, OS HERDEIROS...”: TERRAS INDIVISAS, REDES SOCIAIS E TRANSMISSÃO DE ENGENHOS NA RIBEIRA DO VAZA-BARRIS (SÃO CRISTÓVÃO, SERGIPE, SÉCULO XIX)
Palavras-chave:
Direitos de propriedade, Pró-indiviso, Sergipe, História Agr´áriaResumo
Este artigo versa sobre o uso, posse e transmissão de terras em situação jurídica pro-indivisa na Ribeira do Vaza-Barris, Termo da Cidade de São Cristóvão, antiga capital da Província de Sergipe d’El Rei, em meados do século XIX. A partir das perspectivas introduzidas pela História Social da Propriedade, problematiza-se que a propriedade é fruto das relações sociais desempenhadas entre indivíduos e grupos sociais nas mais diversas condições. Assim, compreende-se que a propriedade canavieira do século XIX passou por um processo de “realização” envolvendo diferentes fatores, dentre os quais destacamos a atuação das famílias possuidoras de engenhos, cujas estratégias senhoriais resultaram numa intrincada dinâmica de uso, aquisição e transmissão da propriedade. Por meio de inventários post-mortem, registros paroquiais de terras, escrituras públicas e processos judiciais, além do emprego da Análise de Redes Sociais, foi possível visualizar graficamente as conexões de vizinhança, parentesco e vínculos entre os senhores de engenho. Ao considerarmos o conjunto de atores conectados às propriedades, observou-se que a aquisição e transmissão de terrenos indivisos dependia do grau de coesão em um núcleo familiar ao impedir (ou não) que a propriedade fosse fragmentada e acessada por indivíduos externos à parentela.
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