CONSEQUÊNCIAS TRÁGICAS DO CETICISMO EM OTELO
DOI:
https://doi.org/10.13102/ideac.v1i53.12672Palavras-chave:
Hermenêutica. Paul Ricoeur. Mundo do texto. Distanciamento. Compreensão de si.Resumo
O artigo analisa, à luz da filosofia de Stanley Cavell, como Otelo dramatiza as
consequências trágicas do ceticismo moderno. Argumenta-se que a peça encena, no plano das
relações humanas, a evasão da responsabilidade pelo significado — isto é, pelo que se diz e se
faz — como núcleo de seu desfecho trágico. Em diálogo com Wittgenstein, Cavell sustenta que
a busca ilimitável por fundamentos converte a finitude humana em “falta intelectual”,
produzindo um desapontamento com a linguagem e obscurecendo a possibilidade de
compartilhar situações de mente (plights of mind). Nesse quadro, o problema das outras mentes
é deslocado do registro estritamente epistêmico para o do reconhecimento: o trágico não decorre
primariamente da ausência de provas, mas da recusa em reconhecer o outro como humano e
vulnerável. Em Otelo, a exigência de indubitabilidade articula-se à autoimagem idealizada do
protagonista, sustentada pelo espelhamento oferecido por Desdêmona. Quando essa perfeição
se torna instável, Iago passa a funcionar como álibi para a demanda de “provas” e para a
negação da finitude de Desdêmona — e, por implicação, da própria. Conclui-se que a tragédia
culmina na petrificação do coração: a morte do outro enquanto interlocutor legítimo e o colapso
da inteligibilidade compartilhada que sustenta a vida humana comum.
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