CONSEQUÊNCIAS TRÁGICAS DO CETICISMO EM OTELO

Auteurs

  • Rafael Fernandes Mendes dos Santos UEFS

DOI :

https://doi.org/10.13102/ideac.v1i53.12672

Mots-clés :

Hermenêutica. Paul Ricoeur. Mundo do texto. Distanciamento. Compreensão de si.

Résumé

O artigo analisa, à luz da filosofia de Stanley Cavell, como Otelo dramatiza as

consequências trágicas do ceticismo moderno. Argumenta-se que a peça encena, no plano das

relações humanas, a evasão da responsabilidade pelo significado — isto é, pelo que se diz e se

faz — como núcleo de seu desfecho trágico. Em diálogo com Wittgenstein, Cavell sustenta que

a busca ilimitável por fundamentos converte a finitude humana em “falta intelectual”,

produzindo um desapontamento com a linguagem e obscurecendo a possibilidade de

compartilhar situações de mente (plights of mind). Nesse quadro, o problema das outras mentes

é deslocado do registro estritamente epistêmico para o do reconhecimento: o trágico não decorre

primariamente da ausência de provas, mas da recusa em reconhecer o outro como humano e

vulnerável. Em Otelo, a exigência de indubitabilidade articula-se à autoimagem idealizada do

protagonista, sustentada pelo espelhamento oferecido por Desdêmona. Quando essa perfeição

se torna instável, Iago passa a funcionar como álibi para a demanda de “provas” e para a

negação da finitude de Desdêmona — e, por implicação, da própria. Conclui-se que a tragédia

culmina na petrificação do coração: a morte do outro enquanto interlocutor legítimo e o colapso

da inteligibilidade compartilhada que sustenta a vida humana comum.

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Publiée

2026-06-15