A centralidade dos saberes guineenses na poética de Odete Semedo

Autores

  • Márcio Matiassi Cantarin Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)
  • Wilson Miguel Turé Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Palavras-chave:

Guiné-Bissau, No fundo do Canto, Literatura Guineense, Epistemologia

Resumo

A África continua frequentemente a ser compreendida a partir de narrativas coloniais e eurocêntricas, produzidas entre os séculos XVIII e XIX, cujo impacto ainda se faz sentir na contemporaneidade. Essas narrativas procuram aniquilar diversas formas de saberes existentes no continente africano, impondo uma cultura etnocêntrica avessa à alteridade. A literatura colonial sobre a Guiné-Bissau reproduz amplamente essa visão de mundo. Tal perspectiva ainda assombra diversas esferas das relações humanas na contemporaneidade, como no espaço acadêmico-científico, onde a lógica da ciência ocidental moderna continua a ser considerada o único padrão predominante e legítimo de produção de saberes, ignorando outras realidades e cosmovisões. Face a este cenário, torna-se urgente promover novas abordagens epistemológicas que valorizem a pluralidade de saberes. Este artigo pretende levantar um debate sobre as epistemologias guineenses, a partir da análise de três poemas da obra No fundo do canto, de Odete Costa Semedo: “Na calada da noite”, “Invocando os irans” e “Bissau levanta-se”. Parte-se do pressuposto de que o conhecimento não é homogêneo nem exclusivo de um único referencial epistemológico; ele se manifesta de forma plural, moldado por experiências e expressões culturais diversas. Superar a lógica de um saber único é essencial para compreender a multiplicidade de perspectivas que compõem a experiência humana.

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Biografia do Autor

Márcio Matiassi Cantarin, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR)

Doutor em Letras pela UNESP/Assis. Professor Associado III da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR - Campus Curitiba). Docente permanente e atual coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagens (PPGEL/UTFPR), e do Programa de Pós-graduação em Letras (UFPR).

Wilson Miguel Turé, Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Cidadão da Guiné-Bissau. É licenciado em Letras pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB), onde atuou como bolsista do PIBID. Concluiu o Mestrado e atualmente cursa o Doutorado em Letras na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde integra o Grupo de Estudos Ecocríticos (GECO).

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Publicado

2025-12-22

Como Citar

Cantarin, M. M., & Turé, W. M. (2025). A centralidade dos saberes guineenses na poética de Odete Semedo. A Cor Das Letras, 26(Especial), 168–186. Recuperado de https://periodicos.uefs.br/index.php/acordasletras/article/view/11970

Edição

Seção

Dossiê temático: Literatura e Epistemologias dissidentes