A centralidade dos saberes guineenses na poética de Odete Semedo
Mots-clés :
Guiné-Bissau, No fundo do Canto, Literatura Guineense, EpistemologiaRésumé
A África continua frequentemente a ser compreendida a partir de narrativas coloniais e eurocêntricas, produzidas entre os séculos XVIII e XIX, cujo impacto ainda se faz sentir na contemporaneidade. Essas narrativas procuram aniquilar diversas formas de saberes existentes no continente africano, impondo uma cultura etnocêntrica avessa à alteridade. A literatura colonial sobre a Guiné-Bissau reproduz amplamente essa visão de mundo. Tal perspectiva ainda assombra diversas esferas das relações humanas na contemporaneidade, como no espaço acadêmico-científico, onde a lógica da ciência ocidental moderna continua a ser considerada o único padrão predominante e legítimo de produção de saberes, ignorando outras realidades e cosmovisões. Face a este cenário, torna-se urgente promover novas abordagens epistemológicas que valorizem a pluralidade de saberes. Este artigo pretende levantar um debate sobre as epistemologias guineenses, a partir da análise de três poemas da obra No fundo do canto, de Odete Costa Semedo: “Na calada da noite”, “Invocando os irans” e “Bissau levanta-se”. Parte-se do pressuposto de que o conhecimento não é homogêneo nem exclusivo de um único referencial epistemológico; ele se manifesta de forma plural, moldado por experiências e expressões culturais diversas. Superar a lógica de um saber único é essencial para compreender a multiplicidade de perspectivas que compõem a experiência humana.
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