Tradução e decolonialidade na América Latina

Autores

  • Gilmei Francisco Fleck Universidade Estadual do Oeste do Paraná

DOI:

https://doi.org/10.13102/cl.v24i1.9330

Palavras-chave:

Colonialidade, Descolonização, Decolonialidade, Prática tradutória decolonial, Ressignificações do passado

Resumo

Neste texto refletimos sobre o teor dos conceitos de colonialidade, descolonização e decolonialidade (DUSSEL, 1942, MINGNOLO 2017; CASTRO GÓMEZ; GROSFOGEL, 2007) e seu trânsito na história da América. Nesse contexto, apontamos para a relevância que o conhecimento de línguas desempenhou desde o princípio da colonização (PAGANO, 2000). Destacamos, assim, o impacto dos serviços de interpretação prestados aos europeus por sujeitos bilíngues no processo de “conquista” da América e as consequências dessas ações às populações originárias (DEL POZO GONZÁLEZ, 2017). Apontamos, também, para o fato da eleição à tradução na América Latina de modelos literários europeus – como fonte de nutrição aos polissistemas literários nascentes (EVEN-ZOHAR, 1990). Isso deu sequência à manutenção do cultivo das ideologias, tradições, hábitos e costumes europeus em terras americanas. Os diferentes sistemas políticos implementados na América Latina pós-colonialista foram, também, cerceadores da prática tradutória decolonial, causando, assim, o desconhecimento mútuo. Tal motivo leva-nos a defender a necessidade de uma prática tradutória decolonial, no âmbito acadêmico, que vise à descolonização das mentes, das identidades e do imaginário latino-americanos. Exemplos dessa ação decolonial (SALES SALVADOR; SPIVAK, 2006; VENUTI, 1995) são, por fim, apontados por nós neste texto, que parte de uma revisão bibliográfica pertinente aos conceitos-chave e aborda nossa própria prática tradutória.

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Biografia do Autor

Gilmei Francisco Fleck, Universidade Estadual do Oeste do Paraná

Pós-doutor (2015) em Literatura Comparada e Tradução, pela Universidade de Vigo-UVigo-Espanha, com Bolsa da CAPES/Brasil; Mestrado (2005) e Doutor (2008) em Letras, pela Universidade Estadual Paulista - UNESP/Assis-SP. Atualmente, é Professor associado da Unioeste/Cascavel-PR/Brasil, atuando nas áreas de Literaturas Hispânicas e Cultura Hispânica na Graduação em Letras. Atua, também, no Programa de Pós-graduação acadêmico em Letras da instituição, na área de Literatura Comparada e Tradução, e no Programa de Pós-graduação Mestrado Profissional-Profletras, na área de Literatura Infantil e Juvenil. É Coordenador Geral do PELCA- Programa de Ensino de Literatura e Cultura – PROEX/Unioeste/Cascavel-PR. É líder e fundador do Grupo de Pesquisa “Ressignificações do passado na América: processos de leitura, escrita e tradução de gêneros híbridos de história e ficção - vias para a descolonização”. E-mail: chicofleck@yahoo.com.br ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4228-2566

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Publicado

2023-07-18

Como Citar

Fleck, G. F. . (2023). Tradução e decolonialidade na América Latina. A Cor Das Letras, 24(Especial), 247–267. https://doi.org/10.13102/cl.v24i1.9330

Edição

Seção

Dossiê - Ressignificações do passado da América: vias para a descolonização e o pensamento decolonial na literatura e na tradução literária